Se é verdade que os únicos paraísos são os que se perderam, sei como devo chamar essa coisa terna e desumana que existe hoje em mim. Um emigrante volta à sua pátria. E eu, eu me lembro: ironia, resistência, tudo se cala, e eis-me repatriado. Não quero ruminar a felicidade. É bem mais simples e é bem mais fácil. Pois destas horas que, do fundo do esquecimento, trago de volta para mim, conservou-se, sobretudo, a lembrança intacta de uma emoção pura, de um instante suspenso na eternidade. Esta é a única verdade em mim. Amamos a flexão de um gesto, a oportunidade de uma árvore na paisagem. E, para recriar todo esse amor, só temos um detalhe, mas que é suficiente: um cheiro de quarto que ficou muito tempo fechado, o som singular de um passo na estrada. Comigo também é assim. E se eu amava, então, ao entregar-me, enfim eu era eu mesmo, já que só o amor nos faz sermos nós mesmos.
Lentas, calmas e graves, essas horas voltam, tão fortes, tão comoventes - porque anoitece, a hora é triste e há uma espécie de desejo vago no céu sem luz. Cada gesto reencontrado me revela a mim mesmo. Disseram-me um dia: "É tão difícil viver." E eu me lembro do tom. De outra vez, alguém murmurou: "O pior erro é fazer sofrer." Quando tudo acaba, a sede de vida se extingue. É a isso que se chama felicidade? Ao percorrer essas lembranças, vestimos tudo com a mesma roupagem discreta, e a morte nos surge como um pano de fundo em tons envelhecidos. Mudamos de opinião sobre nós mesmos. Sentimos nosso infortúnio e dele gostamos mais. Sim, talvez seja a felicidade, o sentimento piedoso de nossa infelicidade.
(...) E eis-me de novo repatriado. Penso em um menino que viveu em um bairro pobre. Aquele bairro, aquela casa! Só havia um andar e a escada não era iluminada. Ainda hoje, depois de tantos anos, ele poderia voltar para lá em plena noite. Sabe que subiria a escada com toda a velocidade, sem tropeçar uma única vez.
- Albert Camus, aos 22 anos. Como nós.
Pelo direito ao besteirol digital
Na sacada que faz um bom quadrinista, Bruno Maron arrematou: “Cézanne, o tataravô do Instagram”. Jocosamente, o designer carioca aludiu a natureza morta pós-impressionista do século 19 à atual mania irrefreável de fotografar comidas, alimentada por tantos usuários do aplicativo pertencente ao Facebook. No balão, o pensamento “as pessoas precisam (grifado mesmo) saber o que eu estou comendo agora”, traduz uma crítica sutil, por associação. E, ao que parece, o compartilhamento de informações estritamente pessoais, que vão de check-ins em paradas de ônibus a registros em velórios, tem incomodado muita, muita gente.
Em tempo, a internet já foi
tratada como panaceia, já se tornou o espaço de todos os males, amém, – e, hoje,
nessa demência de rotulação, a verdade é que ninguém é lúcido o suficiente para
entender com exatidão a potencialidade que ela pode representar de fato. Fala-se muito em web três
ponto zero, o reino da interatividade, em que todos são autores de notícia, et cetera e tal. Mas as repercussões
disso tudo ainda estão sendo deglutidas. E no passo digestivo dos ruminantes.
Essa espécie de perplexidade geral oferece terreno para um deslize comum:
imputar supostos erros de conduta na plataforma, que é apenas uma ferramenta.
Ilustrando, diz-se “a internet expõe muito as pessoas”. Não. Os
usuários se expõem por meio da internet. O porquê de se expor são outros quinhentos, que pouco tem a ver com o instrumento propriamente dito. Vamos lá.
Comunicar só vem do latim o termo. A necessidade humana, em si, em
muito precede o encontro das miríades gentílicas no Lácio. Ela nasce do esforço
em resolver os conflitos de alcance entre os indivíduos e, evidentemente, data
da origem deles. Antes de qualquer império, já havia o batucar dos tantãs, as
pinturas rupestres. E, por trás disso, a procura por revelar, através de
representações, estados de espírito, sensações, ideias, experiências... Num
paralelo possível, é o óbvio ululante que a internet modificou o fluxo de
informações veiculadas e as formas paleolíticas de interagir – mas não a
natureza do ato.
A origem etimológica do termo comunicar nos oferece uma pista provocadora.
Tornar comum. Numa observação
mais cuidadosa, contudo, passei a entender comunicar como soerguer janelas de plural
ventilação nos edifícios dos universos inevitavelmente particulares. Aprofundo em
seguida.
Doutor pela Michigan State
University, o professor Juan Bordenave defende que a comunicação “serve para
que as pessoas se relacionem entre si, transformando-se mutuamente e a
realidade que as rodeia”. Da afirmativa de Bordenave é possível inferir,
portanto, que a ação comunicativa, se não deriva, ao menos está posta em correlação
com determinada realidade vivenciada – que sofrerá tais mudanças. No entanto,
desse vínculo inquebrantável sobrevém uma questão filosófica fundamental, a
qual o professor não satisfaz: do que se trata a realidade?!
Há quase quatrocentos anos, o francês
René Descartes, consciente da soberania da dúvida, danou-se a questionar a
própria existência do homem. Das incursões, que o levariam à supracitada
frase-monumento “penso, logo existo”,
uma pergunta merece especial destaque. Qual a garantia em considerar a vida –
que segue um perceptível enquadramento lógico (não voamos por dupla culpa da
gravidade e da nossa anatomia, por exemplo) – algo real, se, durante o sono, as
ocorrências oníricas fazem pleno sentido?! Não seria a vida, por extensão
possível, uma variável do sonho?!
A Literatura incorporou essa
inquietação através do non sense,
recurso que se vale da exploração de cenas, a
priori, absurdas, muito embora precisem fazer sentido em nome do conjunto
narrativo. E chegou a um resultado conceitual interessante. Trata-se de uma
obviedade (de novo), mas que nem sempre nos damos conta: em virtude até do
aparato biológico, eu não percebo o mundo da mesma maneira que você, leitor,
nem de qualquer outra pessoa. A grande sacada, em fim (e não enfim), se constrói por meio dessa
estratégia de negar qualquer imposição da realidade, já que estranhar o absurdo
(a percepção do outro) é esbarrar no “absurdo real” (a forma com que percebemos
a realidade) de nós mesmos. Mais talentoso com as palavras, Fernando Pessoa
abordaria esse fenômeno da seguinte forma:
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Noves fora, zero: insistir na realidade
– do regime único de percepção, para ser enfático – não passa de mero preconceito
retórico. Por tabela, comunicar é tentar tornar comum. Aproximar ao
máximo. Mas a tentativa é em parte frustrada, porque ninguém é capaz de sentir de
forma genuína as motivações do comunicador ao se expressar. O contato se dá com
a representação – uma imagem, uma fala, um texto, uma música – e não com o
sentimento, a essência. Todo esse passeio, à primeira vista um tanto distante
da discussão propriamente dita, serve para fundamentar que, no fim das contas,
cada um é cada um. E, se a comunicação de fato permite mudar alguém, como
levanta o professor Bordenave, é só a si mesmo (o que não quer dizer que apenas
uma pessoa possa ser transformada em um processo comunicativo). Bingo.
Não há elemento argumentativo forte o suficiente para tornar ilegítima
a divulgação de “irrelevâncias” na grande rede. Quem for dono da própria vida
que faça o que quiser com ela. O resto é intrometimento. Até porque nem só
disso vive a internet: cada qual com seu nicho. A única ressalva a ser feita é
quando esse comportamento expositivo interfere em terceiros. Um exemplo claro (de
outros possíveis) é dos restaurantes pouco afeitos à propaganda popular que se
sentem incomodados quando os cliques, que antecedem as curtidas no instagram,
atrapalham a liturgia do local. Nesse caso, por se tratar de um estabelecimento
privado, com suas próprias regras e concepções, os clientes devem se adequar.
Ou não consumir. Ponto.
Em suma, não é possível mensurar precisamente o que leva alguém a se
expor, a não ser quando essa análise é feita pela própria pessoa – e olhe lá.
De toda forma, as redes sociais permitem interromper os feeds de notícias, filtrando atualizações indesejadas. Aos
incomodados, nos quais não me incluo, a opção de bloquear será sempre serventia
da casa.
lições de começo de ano
lição um: a maior cagada que alguém pode fazer na vida é tomar distância das pessoas que ama afiançado no amor de uma única pessoa
lição dois: dois mil e treze tem sido um ano de perdas. mas eu nunca tive medo de perder nada.
lição dois: dois mil e treze tem sido um ano de perdas. mas eu nunca tive medo de perder nada.
Grato a Ortega y Gasset pelo esclarecimento
Trata-se de uma questão de óptica
extremamente simples. Para ver um objeto, precisamos acomodar de certo modo o
nosso parelho ocular. Se a nossa acomodação visual é inadequada, não veremos o
objeto ou o veremos mal. Imagine o leitor que estamos olhando um jardim através
do vidro de uma janela. Nossos olhos se acomodarão de maneira que o raio da
visão penetre o vidro, sem deter-se nele, e vá fixar-se nas flores e folhagens.
Como a meta da visão é o jardim e até ele é lançado o raio visual, não veremos
o vidro, nosso olhar passará através dele, sem percebê-lo. Quanto mais puro
seja o vidro, menos o veremos. Porém logo, fazendo um esforço, podemos
prescindir do jardim e, retraindo o raio ocular, detê-lo no vidro. Então o jardim
desaparece aos nossos olhos e dele só vemos uma massa de cores confusas que
parece grudada no vidro. Portanto, ver o jardim e ver o vidro da janela são
duas operações incompatíveis: uma exclui a outra e requerem acomodações
oculares diferentes.
Do mesmo modo, quem na obra de
arte procura comover-se com os destinos de João e Maria ou de Tristão e Isolda
e nele acomoda a sua percepção espiritual, não verá a obra de arte. A desgraça
de Tristão só é tal desgraça e, consequentemente, só poderá comover na medida
em que seja tomada como realidade. Porém, o caso é que o objeto artístico só é
artístico na medida em que não é real.
(...)
Isso é uma deslealdade – diria um
artista atual. Isso é prevalecer-se de uma notável fraqueza que há no homem,
pela qual ele costuma contagiar-se da dor ou da alegria do próximo. Esse
contágio não é de ordem espiritual, é uma repercussão mecânica, como o arrepio
nos dentes que produz o riscar de uma faca sobre um vidro. Trata-se de um efeito
automático, nada mais. Não vale confundir cócegas com o regozijo. (...) A arte
não pode consistir no contágio psíquico, porque este é um fenômeno inconsciente
e a arte deve ser toda plena claridade, meio-dia de intelecção. O pranto e o
riso são esteticamente fraudes. O gesto da beleza não passa nunca da melancolia
ou do sorriso. E melhor ainda se a isso não chega. (...)
Não sei, não; mas creio que o
poeta jovem, quando poetiza, se propõe simplesmente ser poeta. (...) Vida é uma
coisa, poesia é outra – pensam ou, ao menos, sentem. Não misturemos os dois. O
poeta começa onde o homem acaba. O destino deste é viver seu itinerário humano;
a missão daquele é inventar o que não existe. Desta maneira se justifica o
ofício poético. O poeta aumenta o mundo, acrescenta ao real, que já está aí por
si mesmo, um irreal continente. Autor vem de auctor aquele que aumenta. Os latinos chamavam assim ao general que
ganhava para a pátria um novo território.
- Ortega y Gasset em A desumanização da arte
learnin' the blues
a
Luiz Humberto e Nelsinho
Deu a hora: minhas pálpebras maldiziam as lâminas de sol que atravessavam sem esforço a persiana remendada. Sempre adivinho o pior lugar da cama para desabar no sono e agora toda aquela luz já havia me furado a cabeça. Por impulso natural, apertei ainda mais os olhos. A boca-semiárido, a saliva dura na ponta do lábio, reclamava água de um jeito estúpido, quase tímido, quase ordem, que só quem já tomou alguns porres de uísque sabe como é.
Quando resolvi me levantar, por pouco não fui de encontro ao chão. O pé direito, de inchado, mais parecia um anfíbio fora de catálogo; corte alongando-se do quarto dedo à base do calcanhar. Bem feio, avalio, mas não aparenta ser muito profundo – menos mau. Porra, essa casa está uma zona, cadê a minha roupa?! Desde que a cintura não consegue acompanhar o cós ando perdendo as peças pela sala. Pelo menos para isto serviu o pé: esquecer a dor de cabeça. Avisto um pano sujo, manchas escuras e vermelhas; sequer me lembro de o ter usado para estancar o sangue.
O calcanhar ajudou a vencer os passos até o banheiro com certa facilidade, embora se esquivar de garrafas vazias e maços de cigarro amassados não seja propriamente uma diversão. Preciso lavar esse corte, urgente. Tentei mover a válvula da pia no sentido anti-horário. Não adiantou. Fiz o contrário, a resposta foi um suspiro grotesco. Seco. Acho que cortaram a água nesta manhã, não tenho certeza. Mais tarde penso em como buscar um pouco lá no ribeirão – recôndito menino de pesca, onde gastava meus finais de semana com os primos –, quem sabe assim também molho o cabelo – o balde, salvo engano, reza o sono dos justos no azulejo frio da despensa. Depois eu vejo se continua lá. Com sorte, aproveito ainda para comprar gasolina no caminho e vê se aquela lata velha volta à vida.
Deu a hora: minhas pálpebras maldiziam as lâminas de sol que atravessavam sem esforço a persiana remendada. Sempre adivinho o pior lugar da cama para desabar no sono e agora toda aquela luz já havia me furado a cabeça. Por impulso natural, apertei ainda mais os olhos. A boca-semiárido, a saliva dura na ponta do lábio, reclamava água de um jeito estúpido, quase tímido, quase ordem, que só quem já tomou alguns porres de uísque sabe como é.
Quando resolvi me levantar, por pouco não fui de encontro ao chão. O pé direito, de inchado, mais parecia um anfíbio fora de catálogo; corte alongando-se do quarto dedo à base do calcanhar. Bem feio, avalio, mas não aparenta ser muito profundo – menos mau. Porra, essa casa está uma zona, cadê a minha roupa?! Desde que a cintura não consegue acompanhar o cós ando perdendo as peças pela sala. Pelo menos para isto serviu o pé: esquecer a dor de cabeça. Avisto um pano sujo, manchas escuras e vermelhas; sequer me lembro de o ter usado para estancar o sangue.
O calcanhar ajudou a vencer os passos até o banheiro com certa facilidade, embora se esquivar de garrafas vazias e maços de cigarro amassados não seja propriamente uma diversão. Preciso lavar esse corte, urgente. Tentei mover a válvula da pia no sentido anti-horário. Não adiantou. Fiz o contrário, a resposta foi um suspiro grotesco. Seco. Acho que cortaram a água nesta manhã, não tenho certeza. Mais tarde penso em como buscar um pouco lá no ribeirão – recôndito menino de pesca, onde gastava meus finais de semana com os primos –, quem sabe assim também molho o cabelo – o balde, salvo engano, reza o sono dos justos no azulejo frio da despensa. Depois eu vejo se continua lá. Com sorte, aproveito ainda para comprar gasolina no caminho e vê se aquela lata velha volta à vida.
Nessa casa não há espelhos, ninguém explica como cabia tanta gente aqui. Tenho que sair dessa: até quando meu dinheiro duraria no turismo predatório de lesbos, as franjas douradas de praia?! Especulei duas semanas. Depois foi só eu ter passado uns dias com o abreu, transferido pela agência para o amapá, lembram?! Não quis incomodar com correspondências, as conexões são sempre ruins, vocês sabem, as tarifas desumanas. Claro que não lembram, mas acreditam. Por que não? Aqui na sala parece noite, o relógio de parede marca 4h17, mas furtei-lhe as pilhas assim que cheguei. Dormiram acesas as luzes, bom que não cortaram ainda. A vitrola, modelo setecentos e três, tocando um chiado fim de disco, deve ter passado a noite ligada. Na verdade, recavei um sinatra no depósito em meio a toneladas de desprezo. Desde então, acompanho learnin’ the blues ao piano vertical e afinado, dizem ter sido da minha bisavó. Morreu por complicações de bronquite, mamãe jovem. The tables are empty, the dance floor’s deserted. É desafiador tocar blues com o fá sustenido quebrado. The cigarrettes you light, one after another. O que não compromete o fato de ter sido a única coisa aproveitável nessa casa – afora o estéreo e o disco, claro. When you feel your heart break, you’re learnin’ the blues.
Minha preferência desde cedo, quanto mais instrumental melhor. O piano, a guitarra, o trompete cantam em linguagem universal. Aprendi a ouvir choro com ela, música de morro, música de gente de verdade, defendia. Cheguei a achar palatável, mas a cafonice comprometia o conjunto. Vindo de rico ou de pobre, meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê é literariamente equivalente a batatinha quando nasce se esparrama pelo chão. Corruptela, sempre digo, o correto é espalha a rama. Quem esparrama é uísque. O copo, não: estilhaça. Despencou durante a dança que continuei dançando. Eu, esnobe; ela, altruísta, dez anos mais nova. Eu com ela; ela sem mim. Nada restou daquilo, apenas o lenço turco, seda pura, rendinha bordada à mão, que usou por meses e meses. Guardei na gaveta de casa antes de ir embora sem deixar ninguém se despedir de mim.
Estacionei o santana noventa e quatro na esquina da praça, a poucos metros da saída de um colégio qualquer. Aguentou uma centena e meia de quilômetros sem reclamar. Não removi da ignição a chave. Lanço a cabeça para trás, pelos da nuca eriçados. Conferi as janelas fechadas, acendo o primeiro cigarro com a mão direita, enquanto a esquerda se ocupa do resto. Até quando vão se esquecer de trocar essa película carcomida?! Iam saindo uma a uma. Meninotas empinadas de saias jeans abaixo do joelho e camisa de poliéster ordinário, lançando-me ao desafio de adivinhar-lhes o desenho dos sutiãs. Os peitinhos pubescentes, como mandacarus aflorando na seca, diria gonzaga, ganhando a rua esquecidos da fome. Procurei um olhar semelhante que fosse. A diferença é que naquelas não cairiam bem vestidos longos, möet-chandon, valsas à meia-noite. Ar-condicionado quebrado, mormaço absurdo, alguém podia me ver através da fumaça?! Foda-se. Ainda que movesse uma multidão a plateia, as tomaria em pé ali mesmo, sob o pretexto de pôr-lhes ordem, já redimido do pecado. E riam, incontidas e nervosas: te mando a conversa; por favor não conte nada a ninguém; qualquer coisa pode dizer que estava lá em casa. Assim não, querida. Não me deixe tão facilmente, trancado nesse carro velho, dedos cerrados, tentando acomodar-me sob o tapete mofado.
Acendo o primeiro cigarro. O silêncio absoluto – nossa casa de campo sempre foi um reduto sem vizinhos –, possibilita-me escutar o crepitar do fumo. Exemplar operário o fogo, calcinando anéis de carbono em esculturas de escombros. Eduquei-me a fumar sem me desfazer das cinzas, porque precisam cair sozinhas. Certa vez, vi-as manter-se quase até o filtro. Era secundarista, nem suspeitava do palato inflamado. Mamãe reclama a toda hora. Meu pai, tabagista irredutível, não resistiu à primeira trombose coronária. Acendo o segundo, o terceiro; o quarto manchado de sangue. Um escroto, o velho. Mandou-se a estudar os apinayé, às margens do araguaia – eles aferem a temporalidade por referências a parentes mais velhos; não há uma medida orgânica do tempo, entendeu, garoto? Eu dizia que sim, pouco importava. Tempo era o que ele perdia demais com as alunas, enquanto mamãe cuidava das avencas, do açúcar para as formigas e do meu irmão. Não me lembro de tê-los visto trocando uma sílaba acima do tom. Ela nunca fez amigos. Ainda hoje serve a mesa com quatro pratos.
Se davam bem as duas, por mais improvável que seja. Mamãe não é do tipo que se compra com simpatia, sou capaz de apostar que foi por ela ter ajudado a aprontar bolo de noiva e lolitas para o natal do condomínio. Me dá nos nervos essa impaciência de sinatra esperando meu primeiro acorde. Celebridade é sempre prepotente. É verdade, desde aquele natal fazia vista grossa para as muitas ideias, a camisa folgada, orelha sem brinco. Ela tinha fome de beauvoir e chegou até a envolver-se com o movimento estudantil. Uísque direto da garrafa, os vidros restaram sobre o carpete. Ela não cansava de repetir que não sei quem dizia que o suicídio é a única questão filosófica verdadeiramente séria. Você não foi séria, meu bem.
Quer saber, saudade – também choram os galegos e os árabes, povos de incansável fraqueza – é palavra maldita, abomino tanto quanto os congressos de literatura regional. Saram rápido as feridas do sapo: já posso até limpar esse pano imundo no meu pé. Casamento marcado para julho, mês de imperador. Tudo ok com o capelão, convites aromatizados, buffet, conceito minimalista, essas modinhas gastronômicas, caralho a quatro. O sorriso piegas, porque sempre, encantava-me, porque desconhecidos os destinos a que nos reserva. O quão melhor seria se você sofresse – me traria mais força. Quem sabe me permitisse até sentir um pouco de pena: o mínimo de pena que pessoas socialmente saudáveis são capazes de se fazer sentir. Você, não. Muito corajosa, podia aguentar sempre sorrindo. Eu abandonei sant’anna na estrada – e ela não voltou em três dias. Aquela droga de sorriso, um oceano inteiro, arruinava tudo! Sempre nauseantemente maior que os problemas, maior que o mundo.
The tables are empty, the dance floor’s deserted. Foram incontáveis jantares sem sal, até o mielograma finalmente indicar a ausência completa de linfoblastos. The cigarrettes you light, one after another. E ela durou apenas dois meses. Lembra-se do primeiro médico ter dito que era uma apendicite?! When you feel your heart break, you’re learnin’ the blues. As gardênias substituíram o véu sem grandes prejuízos estéticos, devo admitir, ainda que fosse uma péssima escolha. Vai agradecer ao quê, filha da puta?! Avisei à família para não lhe dar ouvidos. Responderam que era desejo, não há o que fazer. Desejo?! E quem pode escolher o quê nessa vida?
No fim das contas, você desistiu na hora errada. Desculpa, você sabe como eu fico quando bebo. Uma rosa é uma rosa é uma rosa, não adianta, amor, tem razão. A garganta arde, aqui escurece muito cedo. Arrependo-me de não ter trazido comigo o lencinho. Faltou coragem de queimá-lo junto às fotografias, sabe?! Restam três garrafas, depois não sei o que acontece. Nunca mais – ouça bem –, nunca mais o solto por nada, nada, nada. E não sou de esquecer nenhuma promessa, viu?! A dedicatória aos nossos filhos, uma menina e um menino: como combinamos que seria.
VIII
É a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!
Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...
Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...
Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...
Quintana
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!
Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...
Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...
Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...
Quintana
Heroísmo, pirilampos, wafer de abacaxi e outras coisas da mesma ordem de importância
Em alguns
lugares pelos quais viajei, descobri que certas culturas não se sentem
totalmente confortáveis com o termo "herói", para começar. A Austrália
e a Alemanha são dois países em que as culturas parecem ligeiramente
"herófobas".
Os
australianos desconfiam dos apelos da virtude heroica porque esses conceitos
foram usados para seduzir jovens australianos a lutarem nas batalhas
britânicas. Os australianos têm seus heróis, é claro, mas estes tendem a ser
discretos e recatados, e mantêm-se relutantes por muito mais tempo do que os
heróis de outras culturas. Como a maior parte dos heróis, eles resistem aos
chamados à aventura, mas continuam adiando a decisão e podem nunca se sentir à
vontade sob o manto do heroísmo. Na cultura australiana é indecente buscar a
liderança ou os refletores, e qualquer um que o faça é considerado um
"canguru espalhafatoso" e deve ser ignorado. O herói mais admirável é
aquele que recusa seu papel heroico enquanto for possível e que, como Mad Max,
evita aceitar responsabilidades que não sejam as suas próprias.
A cultura
alemã parece ambivalente em relação ao termo "herói". O herói tem uma
longa tradição de veneração na Alemanha, mas duas Guerras Mundiais, o legado de
Hitler e dos nazistas macularam este conceito. O nazismo e o militarismo
alemães manipularam e distorceram os poderosos símbolos do mito do herói,
evocando suas paixões para escravizar, desumanizar e destruir. Como qualquer
sistema arquetípico, como qualquer filosofia ou credo, a forma heroica pode ser
distorcida e utilizada com grande efeito em intenções malévolas.
No período
pós-Hitler, a ideia do herói foi colocada em repouso, enquanto a cultura
reavaliava a si mesma. Os anti-heróis moderados e insensíveis estão mais em
harmonia com o espírito alemão atual. Há hoje em dia um tom de realismo
despojado de sentimentalismo que é mais popular, embora sempre haja rompantes
de romantismo e de amor pela fantasia. Os alemães podem se divertir com os
contos de heróis imaginativos de outras culturas, mas não parecem à vontade com
os heróis românticos de seu próprio território, por enquanto.
- Christopher Vogler, em "A jornada do escritor"
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