James Nachtwey e a guerra do fotógrafo



Durante dois anos, as micro-câmeras de Christian Frei percorreram territórios de conflito. Não se faz, aqui, necessariamente referência a Kosovo, à Palestina ou à Indonésia – locais em que foi gravado seu filme, Fotógrafo de guerra (2001) –; mas ao que, em essência, o diretor suíço se propôs documentar: o trabalho de James Nachtwey.

Norte-americano por capricho e jornalista por fatalidade (a inquietação diante do mundo, e o mundo diante da guerra do Vietnã); Nachtwey reservou a si o peso de traduzir em combinação cromática as iniqüidades silenciadas. A densidade do que realiza, entretanto, o obriga a caminhar na ponta dos cacos sobre a linha tensionada da conduta moral. Em uma mão, a máquina fotográfica ganha contornos de sombrinha; na outra, deixa debater a convicção de que uma imagem pode fazer mais barulho do que se imagina.

A condição natural da guerra (se é que é possível assim falar), por si só, já subverte qualquer questão ética previamente estabelecida. A gravidade da conjuntura demanda um trato específico, mais complexo. Situações extremas são tentadoras frente à possibilidade de exploração do outro, e do sentido que é gerado a partir daí. Por isso mesmo, para que não se perca de vista os princípios de respeito e não se deixe escapar a condição de indivíduo do retratado, é preciso que a relação fotógrafo-fotografado seja explícita. Exprimir dor, sofrimento e tristeza só é possível por meio da cumplicidade entre quem os sente, porque é consigo, e quem os sente, porque é consigo, já que é com o outro. É justo por não ser alheio que não se pode dizer que Nachtwey – tal qual abutre – se “aproveita da desgraça alheia”.

Tendo em vista o fotojornalismo como gênero com função social específica, de informar dentro de um regime estético; seu trabalho também pode ser analisado sob o crivo dos critérios de noticiabilidade. Em primeiro plano, traz-se o fato de que – se o que Nachtwey relata não é de todo novo – nunca deixou de ser atual. Farelos de combate, pobreza, fome, destruição além de evidenciarem um quadro de hoje, se associam com aspectos correspondentes do repertório da cultura ocidental. Como agulha quente por sobre nossas chagas históricas.

Além disso, a relevância salta de suas fotografias. Elas conseguem tornar comum a situação material, política e social. Talvez com mais eficiência que com palavras, fazem com que um caso específico se torne metonímia de uma realidade. É meio o mesmo caminho que Mário Quintana traçou quando disse que “um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele”.

Para completar, a calamidade e a violência alimentam as pulsões de catarse. Geram cargas emotivas que, se manuseadas com perícia (o mérito do bom fotógrafo também reside em construir representações expressivas), revestem a notícia de interesse. E, finalmente, é necessário lembrar que o tema da morte nunca abandonou a pauta de aflições humanas. Ela, que é matriz dos nossos maiores mistérios e dos mais profundos conflitos existenciais; é suficiente, portanto, para assegurar a importância de qualquer evento em que esteja presente.

Em Fotógrafo de guerra, há o perfil de um homem que, através da mudez das imagens, consegue dar voz a um mundo preterido. O tom obstinado – em que até fotos coloridas soam em preto e branco –, o domínio de recursos de composição geométrica e as estratégias narrativas se somam na equação para falar, de forma sensível e crítica, do que há de mais hostil. A beleza resignada de suas fotografias repousa em não querer tornar bonito o feio.

Óbvio

Veja você, o nonsense hospeda, no útero, uma razão conceitual. E, se o pretexto lhe é inegociável; não se basta, portanto.

A grande sacada, em fim, se constrói por meio da estratégia de negar qualquer imposição de realidade, determinando regimes diferentes de percepção.

Faz-se do realismo preconceito retórico.
Já que estranhar o absurdo é encontrar-se com o absurdo real de nós mesmos.






- Falo de coisas simples com surpresa, porque só agora nelas esbarrei. Me deixa contente o gosto da obviedade. Fico assim: como se tivesse me dado conta da gravidade mais de trezentos anos depois de Newton.

Onde a auto-metonímia encontra abrigo

Nada ocorre com a minha memória, ela ainda funciona como o piano da sala - se o sabem machucar da forma como se deve - mas é que algumas coisas se largam da pele no tempo, e isso vem a ser com quase tudo.

-sidney rocha

Identidades do Cárcere - a vida na Colônia Penal Feminina do Recife

Está no imaginário social. Quadro de presídio é pintado em cores de tensão, tristeza e revolta. São mãos que, em bravata, agarram as grades desgastadas, no encontro grosseiro entre a bestialidade e a autocompaixão; é o silvo metálico que ressoa, em quandos, na espinha dos corredores emudecidos; é o bafio sombrio e empoeirado do claustro; e, o que assola, é a solidez da solidão.

As experiências, dali, não se carregam em porta-retratos.

Como se não bastasse a atmosfera opressiva de toda instituição totalizante, o sistema carcerário brasileiro convive, no quesito hostilidade, com um agravante a um passo de ser naturalizado: a superlotação. Presos são apinhados em cubículos de concreto; por vezes, celas, regularizadas para receber até cinco pessoas, aglutinam quase trinta. A realidade subumana – em que palavras como privacidade e organização, há muito, não são ouvidas – materializa um universo dantesco, com menos literatura que na Renascença. Bem menos.

Entretanto, parte do que se pensa – e muito do que se cria sobre os presídios – não atravessa a risca da suposição coletiva. Ao contrário do que a mitologia perpetuada aponta, é possível buscar alternativas de humanização, mesmo em meio a condições de extrema adversidade. A política de ressocialização aponta que, através do trabalho e do acompanhamento escolar, detentos conseguem fixar os primeiros degraus na escada de saída de seus infernos particulares. O encontro entre instrução e aprendizado tem, no fortalecimento da condição de indivíduo autônomo e livre, sua foz.

A Colônia Penal Feminina do Recife, localizada no bairro de Engenho do Meio, zona oeste da cidade, tem capacidade para abrigar 150 mulheres. No dia 23 de maio, recebia 675. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), as condições do estabelecimento são péssimas. Nas celas, sequer há espaço para o varal. O banheiro é minúsculo, e uma cortina de tecido barato faz vez de porta. Desse lado, o repertório de atividades é minguado, dormir e assistir a uma televisão de 14 polegadas – a que toda cela tem direito, se for fornecida pela família das detentas – é, na melhor das hipóteses, o que se tem para fazer.

Duas faces da realidade

Da inércia e da desordem, se cria um ambiente de angústia compartilhada, que reduz a perspectiva mais simples à menor chance de se fazer concreta. Não se afogar no charco do desestímulo parece impossível. Mas só parece. Quase 22% das detentas conseguem fazer da vida que ali se leva também uma experiência socialmente construtiva, minimizando as chagas que a convivência na instituição provoca. Hoje, 147 mulheres trabalham na unidade; ou no setor administrativo – as chamadas concessionadas – ou em uma das quatro empresas privadas parceiras da Colônia Penal.

Empregar mão-de-obra dos presídios não é caridade. Augusto Sales, supervisor de laborterapia, explica que, de acordo com a Lei de Execuções Penais, se trata de um negócio vantajoso para as empresas. Não precisa pagar férias, décimo terceiro salário e nem rescisão contratual. Só devem ao Estado, todo mês, o valor de dois salários mínimos, para custear a energia e a água por conta das instalações, que funcionam na própria unidade prisional. O empresário também é responsável por montar o espaço de trabalho, com reformas de galpões, teto e instalações elétricas.

As detentas que trabalham no setor privado recebem 75% do salário mínimo (R$ 408,75) em espécie. Já para as concessionadas, 25% desse valor é retido na poupança que o Estado faz para cada uma. Recebem-se R$306,56 e os R$102,19 restantes são armazenados todo mês. Uma vez em liberdade, tem-se acesso integral ao dinheiro.

Ao chegar à Colônia Penal, a reeducanda faz um cadastro em que registra suas habilidades e experiências. Assim, se deveria fazer o processo de seleção para as vagas de trabalho, mas nem sempre é o que acontece. A indicação também é um fator preponderante na hora de escolher quem deve ser beneficiada pelo vínculo profissional.

A vida em um dos presídios

Antes de entrar na Colônia Penal Feminina do Recife, deve-se passar pela recepção. Uma saleta de tom triste, com ar-condicionado e relógio prata pendurado na parede, cuja mobília se resume a um sofá preto de três lugares e um birô branco, sobre o qual repousa o jornal do dia. A comunicação com a rua acontece por meio de uma delgada portinhola que precisa ser arrastada para abrir, deixando apenas os olhos à vista. Sobre o portão negro de ferro, uma câmera de segurança monitora a movimentação.

Do lado de fora, meia dúzia de parentes das detentas eram castigados pelas chuvas de maio. Acotovelando-se sob o beiral, teriam que esperar por mais de quatro horas para tentar emitir a carteira de visitação. Em vão; a greve dos agentes sociais paralisara a atividade. Lá dentro, dois funcionários, sem muito trato na gentileza, lembram que entrar no presídio com celular é crime. Eles anotam (e retêm), como quem faz favor, a carteira de identidade dos visitantes.

Uma vez na unidade, no entanto, a primeira impressão do ambiente escapa ao estereótipo. Depois da vistoria na recepção, se chega a um corredor onde algumas presas circulam livremente. São elas que apontam o caminho da Sala de Administração. Com naturalidade, ficam sentadas, observando o movimento como se fossem supervisoras de colégio. O fato de não estarem enclausuradas o tempo inteiro tem explicação: são também funcionárias do presídio. Precisam efetuar uma série de tarefas, entre as quais fazer faxina, entregar encomendas que já foram revistadas e servir cafezinho para os agentes penitenciários. O uniforme lilás as diferencia.

O corredor, com uma samambaia de plástico pendurada na entrada, tem forma de L. Na entrada, uma porta dá acesso ao galpão em que funciona uma empresa de costura. Engana-se quem acha que os produtos fabricados ali servem para uso no presídio; na verdade, são vendidos em grandes lojas de Recife. Na final do corredor, há o berçário onde as gestantes, que demandam cuidado sanitário específico, são isoladas. Antes disso, na curva, uma grade com trava elétrica, daquelas que são abertas por um interfone, o separa do pavilhão central, onde acontece a maior parte das atividades sociais do presídio.

Bem no centro do pátio de convivência há uma pequena quadra de cimento, onde um grupo joga vôlei com o professor de Educação Física. Em suas pilastras estão amarrados os barbantes em que secam dezenas de roupas. Tudo é visivelmente improvisado. Ao redor, o chão é de terra batida. O pavilhão é retangular; nas duas laterais, funciona uma série de estabelecimentos da unidade. São como casinhas enfileiradas, cada qual com uma atividade distinta. Aos fundos, do lado de uma guarita suspensa completamente vazia, há um imenso portão cinza. É através dele que cinco reeducandas, vigiadas por dois agentes, despejam sacos de lixo na rua. Na mesma hora, na cozinha, um grupo prepara o almoço do dia: fígado com feijão.

No final do pátio, o salão de beleza Zuzu Angel está lotado. Ele pertence ao Estado; os tratamentos estéticos devem ser comprados na administração da Colônia Penal, e servem para custear os gastos da unidade. As manicures sempre cobram novos alicates de unha. Um corte custa R$8,00, já a escova sai por R$12,00. A média de preço na cidade, para os mesmos serviços, é, respectivamente, R$25,00 e R$30,00. Do outro lado, uma cantina vende almoço para quem não aprecia a comida da prisão. E também material de higiene pessoal, bebida não-alcoólica e cigarro. O chocolate está em falta; a sardinha custa R$3,00 e a lata de creme de leite R$2,00. O maior lucro fica a cargo do refrigerante, vendido em garrafas de dois litros a R$5,00. Os 1.700 pães diários, consumidos no presídio vêm da padaria, que fica entre as duas partes da cantina. Cinco mulheres os produzem em um ofício que é passado pelas gerações de detentas.

Em outras salas ao redor do pátio, funcionam as empresas. Algumas são escuras e úmidas, por conta de vazamento. Segundo Sales, o problema será solucionado com a reforma do andar de cima, que deve receber nova parceria, já em processo de negociação. Outras, em locais mais claros e ventilados. A fábrica de costura é a única que fica na área externa, perto da recepção. Lá, um pequeno quadro salta aos olhos. Traz uma lista com a quantidade de materiais usados por elas como chave-de-fenda, estilete, tesoura. Todos os dias, a recontagem das ferramentas é feita. “Já sumiram?”. Sales: “Já, mas ameaçamos: 'se não aparecer até o fim do dia, todo mundo perde o emprego'. Apareceram”.



Lúcia* está presa há mais de três anos. Com quinze dias na Colônia Penal foi chamada para trabalhar. Por ironia, em casa, a máquina de costura da mãe nunca a atraiu, mas, no presídio, seu primeiro ofício foi confeccionar lençóis. Com pouca familiaridade, teve que se desdobrar para traçar os primeiros pontos. Com o tempo, passou por uma empresa de produtos para construção civil – que não funciona mais – e, há quase um ano, está no setor administrativo. Trabalha com a agente penitenciária Fátima Vasconcelos. Como a própria Lúcia explica, faz “de tudo um pouco, concentrando-se na limpeza’’.

Fátima conta que, quando estava perto de sua funcionária anterior sair da prisão, passou a observar as demais detentas. A dedicação e o valor que Lúcia atribui a tudo que faz lhe chamaram atenção. Tal zelo só pode ser justificado pelos benefícios que a ocupação proporciona. Além do aprimoramento profissional, ela possibilitou à reeducanda estreitar relações com suas colegas de trabalho, “são como uma família para mim’’, explica. Assim, foi possível tornar produtivos e menos estafantes os dias na Colônia. “Lá fora, às vezes, a gente não quer nada; a mãe dá conselho, mas a gente tem que vir parar aqui pra pensar. Eu acho que, se fosse hoje, não estaria aqui”.

Lúcia já dividiu com outras 19 pessoas a mesma cela. Mesmo assim, contrariando o que se espera, conta que, embora muita gente discorde, a sua vida no presídio está longe de ser um inferno. Acorda cedo, toma café, e às 8h começa o expediente que só termina às 16h, com uma hora para almoço, ao meio-dia. A convivência com as detentas que não realizam nenhuma atividade é mínima.

Diva* também tem vida ativa na prisão. Há dois anos e oito meses trabalha na costura durante o dia. À noite, é aluna da Escola Olga Benário Prestes, que funciona na Colônia Penal. “Todo benefício pra reeducanda é bom. Escola, trabalho, pintura, arte, tudo! Porque você ocupa a mente. Se você ficar só dentro da cela, começa a maquinar só coisa do mal. Nunca vi ninguém parado pensar coisa do bem, nunca vi. Então você começa a pensar: 'estou parada, precisando de dinheiro, acho que vou colocar uma droga no corredor. Estou parada, vou fazer uma cachaça...’”.

Durante os três primeiros meses, só uma preocupação a consumia, ir embora. No entanto, as experiências de ser mãe e, principalmente, avó caíram-lhe quase como uma epifania. Descobrir outros sentidos para a vida a fez pensar em não mais se envolver com drogas. A guinada lançou luz sobre seu futuro, materializando-se em planos. Decidiu: quer montar um lava-jato, quando estiver do outro lado do muro.

Diva já ganhou um concurso organizado pela Secretaria de Ressocialização (SERES) com um cordel contando a experiência da sua prisão. A literatura é incentivada na escola do presídio, e é importante na afirmação de identidade e entendimento da sociedade. “As pessoas nos dizem: ‘Não, porque a sociedade recrimina lá fora...’, ora! Quem é a sociedade, se não somos nós?!”, explica.

A partir das 11:30h, o almoço começa a ser servido no berçário, já que as gestantes têm preferência. Uma senhora negra, aparentando ter bem mais de 40 anos, com um piercing na sobrancelha, está sentada no chão. Na altura do ventre abaulado segura uma panela de inox, da qual retira, com uma concha, o feijão, servindo-o em um pote branco de sorvete com seu nome pintado em esmalte rosa. Por etapas, as detentas vão esvaziando as celas e ocupando o refeitório. Sempre reclamam da comida.

Sem muito esforço, é possível observar que a Colônia Penal funciona como se fossem duas: uma para as que estudam ou trabalham; outra para as que não. Vivem como se em um bairro, com seus moradores e atividades. Uma das “moradoras”, sentada perto do salão, conversava conosco, como um daqueles bate-papos entre vizinhos que não podemos ser. Falava sobre Brasília, sua terra. No decorrer da conversa, contou com naturalidade o que soou como uma surpresa: “Eu moro na Asa Norte**”. Ela mora em Brasília, verbo no presente. Já que, na Colônia Penal, só se está de passagem.




*nome fictício
**bairro da cidade de Brasília

 
em parceria com Alana Lima

Joões são os outros

Não era a todo mundo que o baiano João Gilberto dava confiança.

Estava, certa vez, em casa com Astrud Gilberto, sua esposa, e um amigo portoalegrense, Alberto Fernandes, quando seu padrinho de casamento, Jorge Amado, telefonou-lhe.

Ninguém menos que Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em visita ao Brasil, estavam em sua casa no Rio de Janeiro. Não seria ótimo que João desse um pulinho até lá e levasse o violão?

"Está bem, Jorge. Eu já vou."
Sartre e De Beauvoir já morreram. Até hoje, João Gilberto não chegou.





Adaptado de Chega de Saudade, de Ruy Castro.

Canções de exílio


“Decide-me: Brasília, sem ser nomeada, seria o centro da canção-monumento aberrante que eu ergueria à nossa dor, à nossa delícia e ao nosso ridículo.

Bem, pelo menos era assim que eu sentia as coisas no paroxismo da inspiração. A canção real que consegui fazer me entusiasma muito menos do que a imagem difusa que eu fazia dela quando ela era apenas uma possibilidade. Mas ela exerceu forte impacto no ambiente de música popular e em muitas cabeças interessantes no Brasil – e rendeu estudos acadêmicos em que foi chamada repetidas vezes de ‘alegórica’. E conheceu considerável sucesso popular.

O arranjo dessa canção ficou a cargo de Júlio Medaglia. Eu tinha distribuído o repertório do disco entre os três maestros da ‘música nova’ de São Paulo que se aproximaram de nós: Medaglia, Damiano Cozzella e Sandino Hohagen. Rogério Duprat – na verdade o mais interessante deles – chegara um pouco depois e, a partir de ‘Domingo no Parque’, tinha ficado mais ligado a Gil. No dia da gravação da base orquestral dessa música, apesar de ser para mim a mais representativa, era a única que não tinha título, o baterista Dirceu, que nada sabia sobre o que tratava a letra que só seria gravada depois, ao ouvir a introdução em que sons percussivos, cantos de pássaros e intervenções do naipe de metais se superpunham, lembrou-se da carta de Pero Vaz de Caminha descrevendo a paisagem brasileira no momento do descobrimento. A gravação que foi aproveitada contém o discurso que Dirceu improvisou de pura gozação, sem imaginar que já se estava gravando, e muito menos quão adequada era sua falação ao tema tratado na letra. ‘Quando Pero Vaz de Caminha descobriu que as terras brasileiras eram férteis e verdejantes, escreveu uma carta ao rei: tudo o que nela se planta, tudo cresce e floresce e’, numa referência ao técnico de som Rogério Gauss que comandava a mesa de gravação, ‘o Gauss da época gravou!’, ouve-se Dirceu dizer antes que eu entre com os primeiros versos instauradores do panorama em que se desenrolará a construção da visão algo cubista:

Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central do país.



A canção, longa, depois de passar pela imagem de uma ‘criança sorridente, feia e morta’ que ‘estende a mão’ de sobre os joelhos do ‘monumento’, por uma ‘piscina com água azul de Amaralina’ e pelos ‘cinco mil alto-falantes’ que ‘emitem acordes dissonantes’ (sempre intercortada por um refrão musicalmente fixo mas de letra variável, dando vivas a pares de rima primária e contiguidade desconcertante, como ‘Viva a bossa sa-sa/ Viva palhoçaça-ça-ça-ça’, ‘Viva Maria iá-iá/ Viva a Bahia iá-iá-iá-iá’, ‘Viva Iracema ma-ma/ Viva Ipanema ma-ma-ma-ma’), termina por arrematar o grito de Roberto Carlos ‘que tudo mais vá pro inferno’ com um ‘Viva a Banda da-da/ Carmen Miranda da-da-da-da!’. Claro que a frase mais famosa do Rei Roberto, seguida da Banda do Chico e do nome de Carmen Miranda (cuja última sílaba repetida evocava o movimento dadá e, pra mim, misturava seu nome ao de Dadá, a famosa companheira do cangaceiro Corisco, estes dois últimos personagens reais e figuras centrais de Deus e o Diabo na Terra do Sol), dava, de forma elíptica mas imediatamente perceptível por qualquer brasileiro que ouvisse canções (nunca foram poucos), uma reestudada geral na tradição e no significado da música popular brasileira. Mas cada refrão tinha sua constelação de sugestões ou referências. Além da ‘bossa’ noelina e nova e elisreginianamente televisiva colada à ‘palhoça’ temos o nome do filme Viva Maria, de Louis Malle (Brigitte Bardot era uma presença feminina muita mais constante em minha mente do que a de Marilyn, como já disse), um filme sobre mulheres e revolucionários na América Latina, seguido de ‘iá-iá’, que é o modo como os negros da Bahia (que é a palavra que se segue no refrão) sempre chamaram suas patroas ou donas, assim como toda mulher que lhes fosse superior, uma vez que iá é ‘mãe’ em iotuba; depois o par ‘Iracema’ (um anagrama de América, nome da índia que é a personagem central e título do belo romance oitocentista de José de Alencar) e ‘Ipanema’ (palavra tupi que quer dizer ‘água ruim’, nome tornado mundialmente famoso por causa da ‘Garota de Ipanema’, de Jobim e Vinicius de Moraes) aproxima as duas praias, uma do Rio e a outra do Ceará, e as duas figuras femininas, uma do século XIX, outra do século XX, uma índia, outra branca, uma dando nome a uma praia (a praia de Iracema, em Fortaleza, foi assim batizada em homenagem à personagem de Alencar), outra tomando de uma praia seu nome (a garota de Jobim e Moraes é uma homenagem deles a Ipanema). ‘Viva a mata ta-ta/ Viva a mulata ta-ta-ta-ta é o menos polissêmico dos refrões, mas a possilemia dos outros não é o que justifica sua existência e posicionamento no corpo da canção. Observá-la é apenas um ato de curioso detalhismo a que me dou o direito, por entender que pode ser agradável para quem me leia descobrir algumas das causas das emoções ou sensações que a canção porventura tenha desencadeado. A ‘mata’ e a ‘mulata’, de qualquer modo, são duas entidades múltiplas e, posto que óbvias, misteriosas.



Seria necessária muita paciência (sobretudo do leitor) para estender esse tipo de mirada às estrofes, mais longas e não menos cheias de sugestões. Basta que se diga por agora que essa canção sem nome justificou para mim a existência do disco, do movimento e de minha considerável dedicação profissional que ainda me parecia provisória: era o mais perto que eu pudera chegar do que me foi sugerido por Terra em transe.



Num almoço na casa de não sei quem em São Paulo, ao qual suponho que Mário Schemberg compareceu, me pediram que cantasse algumas das músicas que eu estava gravando. Luís Carlos Barreto, um fotógrafo jornalístico que tinha se tornado produtor de cinema depois de magníficos trabalhos como diretor de fotografia (devem-se a ele as imagens da obra-prima Vidas secas e do próprio Terra em transe), impressionou-se com essa canção (o que é perfeitamente coerente) e, ao ser informado de que ela não tinha título, sugeriu ‘Tropicália’, por causa, dizia ele, das afinidades com o trabalho de mesmo nome apresentado por um artista plástico carioca, uma instalação (na época ainda não se usava o termo, mas é o que era) que consistia num labirinto ou mero caracol de paredes de madeira, com areia no chão para ser pisada sem sapatos, num caminho enroscado, ladeado de plantas tropicais, indo dar, ao fim, num aparelho de televisão ligado, exibindo a programação normal. O nome do artista era Hélio Oiticica, e era a primeira vez que eu o ouvia. Eu naturalmente disse que não, que não poria o nome da obra de outra pessoa na minha música, que essa pessoa poderia não gostar. O que eu não disse, é que esse nome ‘Tropicália’ não me agradara muito, embora a descrição que ele dera da instalação me atraísse. ‘Tropicália’ parecia reduzir o que eu entendia de minha canção a uma reles localização geográfica. A palavra era pregnante, contudo, e nós não a esquecemos. Guilherme Araújo gostou. Manuel Barembein, a quem eu caí na asneira de contar a sugestão feita por Barreto, agarrou-se a esse nome e, para todos os efeitos, enquanto eu não encontrasse um nome melhor, a canção se chamava ‘Tropicália’. Nas caixas de fita, nas fichas de gravação, nas conversas, o nome Tropicália se impôs. O único outro título que me tinha ocorrido – ‘Mistura fina’ – era evidentemente insatisfatório. Tratava-se de uma conhecida marca de cigarro, o que estava de acordo com o método de referências publicitárias – e ainda não era uma expressão tão gasta quanto hoje –, mas a palavra mistura enfraquecia a canção. Como eu não achasse nunca um outro melhor e o disco já estivesse pronto, Tropicália ficou e oficializou-se”



Caetano Veloso em Verdade Tropical