A ignorância afirma ou nega veementemente


Petrarca inventou o amor. Quer dizer, foi, antes dele, a literatura que o criou. Escorre das canetas; de toda pena que pinga, em retrocesso histórico, o líquido amniótico da poesia do século catorze, e das pequenas canções italianas, e dos trovadores provençais. E de Petrarca. A invenção do amor é literária. A efusão crua de sentimentos não é mais que máscara do cio.



O amor é uma bobagem. Cera; a sinceridade é o sexo. Teatro catarse, palavra ametista. Coisas bonitas (embora, desde Kant, a concepção estética é expressão maior do subjetivo). O amor, em seu âmago, é literalmente literatura.



Petrarca é, por assim dizer, a epifania do cinismo. A necessidade atemporal de justificativas éticas para a natureza. Como se o natural precisasse de um antropoatestado para ser legítimo. Melhor: o amor, talvez, seja anacrônico. Talvez, desde Kafka – e sua metamorfose de cabeça para baixo – sua ode ao retrocesso – o regresso ao in natura – o amor seja anacrônico. Ou antes dele, não sei.



Parece, no entanto, que – a cada declaração debutante ou derradeira – pishtacos embolam a gargalhadas. Pouco dizem, muito pungem encenações malfeitas. Teratológicas.





Boas praças reservam a si a vez de conselheiro aos casais: “Se curtam”.

Mas mal conseguem ouvir que o que ressoa, na verdade, é: “Cicuta”.





Faz pensar que até aqui a associação inversa te faz pensar.
Nem tudo que faz crescer faz sorrir.

um caso de estetoscópio

meu médico recém chegou em sua sala
vindo da cirurgia
ele me encontra no banheiro masculino.
"puta que pariu", ele me diz,
"onde você a encontrou? oh, como é bom
olhar para garotas como esta!"
eu lhe digo: "é minha especialidade: corações de
cimentos e corpos esculturais. se conseguir ouvir um
batimento, me avise."
"vou cuidar dela direitinho", ele diz.
"sim, e por favor lembre-se de todos os códigos
de ética de sua honorável profissão", eu lhe disse.


fechou primeiro a braguilha e depois lavou as mãos.
"como está sua saúde?" ele pergunta.


"Fisicamente funciono como um relógio. mentalmente
estou perdido, condenado, carregando minha pequena cruz, toda
essa merda."


"cuidarei bem dela."


"sim. e me avise a respeito dos batimentos cardíacos."


ele saiu.
terminei, fechei a braguilha e também saí.
mas não lavei as mãos.


estou muito à frente dessas preocupações.




                                                                            Bukowski

Pseudo-ineditismo de clássicas experiências novas

Todos de cativeiro. Nem eram tão novidade assim aquelas barras de ferro. Alocadas em fileira meticulosa de verticais, limitação rítmica pelo padrão de espaçamento, de forma que se pudesse passar um braço ou uma perna, mas nunca o crânio, sem que se evitassem os traumas e concussões. Elas, evidentemente, percorriam toda a extensão física, demarcando-a; embora que, com o tempo, tenham se expandido à restrição visual e de intenções.


Ali, por comprimento-altura-largura, poderia acolher uma dúzia dos maiores elefantes indianos, mas fazia vez de abrigo a cinco jovens de crespos pêlos cor de azeitona. Todos tinham a mesma idade e o mesmo porte físico.

Acontece que, para os de fora, se fez por bem acrescentar ao ambiente alguns adornos: uma escada de alumínio e borracha negra fora encostada à parede do fundo, em cujo cume acomodou-se um frondoso cacho de banana-prata. Ali estava, aos inquilinos, uma estrada de paralelas e perpendiculares que levavam direto ao céu. O vértice da parábola de qualquer existência: recompensa máxima; esforço mínimo. A Pasárgada dos primatas.

Entretanto, o que a malícia deles não permitia perceber era a existência, conectado à escada, de um sistema de captação de impulsos, que percebia o contato, por mais ligeiro que fosse, no degrau. Material de última geração, sem dúvida. Acontece, também, que esse aparelho, ao notar a interação táctil, ativava automaticamente o equipamento anti-incêndio adaptado, ensopando por quinze longos minutos todos os pobres residentes.

Quando o primeiro se antecipou aos outros, frente à recompensa em carboidratos e potássio, o danado do sistema tratou de esguichar uma água tão forte e gelada, que fazia, sem pena, à meia dezena, os calafrios ressoarem em uníssono. Com o susto, o prodígio escorregou da escada antes que alcançasse o laurel. Na segunda tentativa, novamente frustrada com outra sessão de tortura glacial, seus co-habitantes perceberam o elo entre sua ambição e os banhos, e trataram de aplicar-lhe uma tremenda sova. Para aprender, é claro.

Ficou estabelecido, portanto, que se qualquer ser-respirante daquele recinto ousasse tentar consumir as bananas, e isso provocasse o encharcamento dos pêlos – que por espessos que fossem, não eram impermeáveis – seria prontamente penalizado com os mais vibrantes cascudos, beliscões, pontapés e bordoadas. Com direito a músculo, unha, pau e pedra.

Pelos dias, o cacho de frutas enegrecidas era trocado por um novo, ainda maior, mais bonito e suculento. Não satisfeitos, os de fora resolveram então substituir uma das famigeradas cobaias por outro animal também da mesma espécie, idade e porte. O novato, coitado, assim que adentrou no lar, encantou-se com as bananas e se danou a tentar fazê-las jantar. Foi devidamente castigado, óbvio.

Em manhãs seguintes, outro residente antigo foi substituído por um novo, com as mesmas qualidades em genes, volume e primaveras. O processo se repete: deslumbrado com a magnitude do cacho, o calouro tenta devorá-lo e termina por apanhar de todos, inclusive do primeiro novato, que aproveita para descarregar toda a angústia do seu batismo.

E assim foi até o momento em que só restara um único que, outrora, sentiu na pele (espero que o caráter denotativo redima a falta de capricho metafórico, por não se tratar de uma) o preço da ousadia. Acontece que, no dia em que o derradeiro foi substituído, o ciclo não minguou; a pancadaria virara estribilho. O quinto novato terminou espancado pelos outros quatro que, faço questão de lembrar, nunca haviam tomado um banho sequer.

Dois anos depois da primeira tentativa frustrada da safra inicial, e após sete trocas completas de elenco e algumas dezenas de cachos, todos os recrutas e veteranos são agredidos à menor manifestação de vontade em se aproximar da escada, embora sem que ninguém tenha, ao menos, tocado-a nos últimos vinte e cinco meses.

Cul-ti-var

Humus é a âncora etimológica do homem.


As palavras são forjadas em metal quase inoxidável. A importância, pois, em reconhecer, nos termos, da maleabilidade da matéria-prima à fina complexidade dos alfanjes que se tornam, reside no resgate à percepção semântica original. É como volver à boca do labirinto.

É certo, no entanto, que o tempo faz do palato, da língua e dos dentes pedra de mó. Mas, como na cevada e no trigo, a essência não escapa.

Humus é terra fértil. Fagocitam-se as sementes ruins, e as boas se dão.

Ataúde-sem-manto

Os sonhos: ensarilhados a úlceras atemporais do que se sabe. O desejo, em inverso de condição, transmuta-se em angústia.

A lógica da homofobia




Antes de tudo: este texto nasceu da repugnância diante dos disparates reproduzidos com o ímpeto do fordismo retórico de redes sociais e devorados com uma passividade, no mínimo, bestializante. É, em suma, a síntese do encontro entre lágrimas e vômito.

E – se me permite o intertexto – no mesmo espaço onde suspira a monodia da ingenuidade, vem a absorção simbólica que morde.

É engraçado como o absurdo e o óbvio revezam a mesma cadeira no diálogo. E é assustador constatar que, na medida em que conhecemos as coisas, mais ainda – por paradoxal que seja – cresce a nossa ignorância diante do mundo e das pessoas.







Tomemos por base o seguinte: uma ação, de qualquer natureza, deve ser considerada legítima, caso todos os envolvidos estejam em comum acordo, e não haja qualquer artifício com o intuito de ludibriar ou enganar alguma das partes. No caso de um relacionamento, se não há imposições na política entre os parceiros, não existe problema algum. Perfeito. Sim, falo política entre os parceiros o que chamam amor. Ou, melhor dizendo, a forma de vivê-lo. Mas o importante é saber que isso independe de configuração sexual. Claro. E que, se recorresse à convenção, eu seria piegas já de início.

Voltando ao que importa. Um relacionamento, por razão óbvia, só interessa a quem está se relacionando. Os de fora – seja pai, mãe, avô, afilhado, professor, policial, vizinho, patrão ou padre – não têm absolutamente nada com isso. Nada. A antítese não passa de provincianismo, porque se faz suporte para o intrometimento covarde; para o seqüestro do direito à escolha. É a emboscada para a liberdade, atolada até o nariz no lamaçal de sussurros e escarros de séculos que já deveriam ter passado.

Sim, uma coisa: não há defesa para frescura. Ponto. Mas frescura também não está necessariamente vinculada à sexualidade. Tanto pode se manifestar na bichinha despudorada, quanto no machão-afetado-que-disfarça-insegurança-cuspindo-na-cara-dos-frangos.

Incomodar-se com a opção sexual dos outros é não conseguir se desprender do ranço dos valores tradicionais. Todas aquelas instituições, tratadas pela Psicologia Social, ou – se melhor lhe provir – tudo o que Roland Barthes chama mito: processos que se esvaziam em sua historicidade, sendo ela substituída por uma falsa naturalização. Só que os mecanismos se tornam elípticos. Desaparecem. Os ditos são impostos como verdades inerentes; mas, na realidade, não passam de construções históricas. E, hoje, não superam a condição de aforismo caduco. Não precisa ser nenhum supra-sumo da antropologia para saber que a noção de família e de sexualidade mudou completamente no derramar da História. Só pra ilustrar, só pra ilustrar: a propriedade privada, ao estabelecer a necessidade de herança, pariu o conceito de casamento monogâmico. Há registros, também, de sociedades que estimulavam – até por uma questão bélica de incentivo à proteção recíproca entre os membros do exército – a homossexualidade. Enfim, é fácil perceber que nem sempre a ética homofóbica, que dizem ser em defesa da “tradição” de hoje, correspondeu ao modelo de conduta social. Ainda bem.

Mesmo assim, não falta quem brade: “não é natural que dois seres do mesmo sexo mantenham relações”. Essas mesmas pessoas, no entanto, não percebem que fica suspensa a questão: “O que se pode definir por natural?”. Golfinhos e veados (e, daí, a alcunha) são exemplos de membros-integrantes-da-fauna que praticam relações homossexuais. Um absurdo, não é?! Claro que não. Nem é absurdo, nem é exceção. Cisnes-negros, bisões, alguns tipos de macaco, e vários outros animais – é só pesquisar, o Google está aí para isso –, também são adeptos do sexo entre iguais. Será que eles, que, até onde se sabe, ouvem apenas os acordes do instinto, são antinaturais?! Ora, seria de uma ironia sem tamanho. Pois, assim, nem a própria natureza é natural.

É duro para alguns, mas sexo nunca foi só para procriação. Isso vale para qualquer espécie, inclusive, a nossa. E mesmo que o fosse, não faz parte da configuração própria humana (e isso que nos diferencia dos outros) subverter as questões intrinsecamente instintivas, de acordo com vontade/necessidade?!

A História já assistiu a algumas vezes em que uma pessoa, por si só, achou que poderia decidir por todos qual é a melhor forma de viver. E, a isso, chamou-se fascismo (ou, que os verdadeiros intelectuais do Brasil não me lancem à fogueira, socialismo). Respeitando-se o limite, que é o outro, cada um que sabe de si. Sempre que um homem acredita ser seu dever impor méritos que são individuais a outras pessoas, o mundo – valendo-me da graça literária de Helena Walsh – retrocede em quatro patas.


Era só isso que eu tinha pra dizer.