É domingo, Jorge, meu velho


Dizem que domingo,
Jorge, meu velho.
É tão estéreo,
Que enche de dó.

É sacanagem;
Mentira;
É o sonho;
É o suor;
E a luta;
É o relento.
E o silêncio;
Só não é alegria.


Domingo é cinza,
Jorge, meu velho, amigo.

Mas, graças a Deus, nem todo dia é domingo.

Juvenal

Juvenal não entende. Como saber que eram dezesseis? Contava vinte e um, vinte e dois. Mas era linda. Só não tinha seios fortes, nem macios como pêssego... Muito menos vermelhos, porque aí já é clichê demais.

Da separação. Não o soneto.

Quando confiança vira arrependimento, a esperança é desespero e a raiva é a paixão.

Cai o gozo, racha a espuma, reina a razão.

Seu amor esbarra em você.

Você, essa casca espessa. Linda, Linda. E podre. Meu pecado, penetrá-la.

Ter ido além do seu amor.

STOP

- Nome?
- Asdrúbal.
- Como é?
- Asdrúbal.
- Astrúdal?!
- Não... Asdrúbal.
- Uma porra!
- Claro que é, Asdrúbal existe. O avô do Mequinho, que a gente conheceu naquele aniversário lá, é Asdrúbal. Pergunte a ele!
- Porra, o avô do Mequinho é o quê?!
- Asdrúbal! Pergunte a ele!
- Aham... Beleza, velho, eu botei “Antônio”. E o lugar?
- Tu botasse o quê?
- “Alabama”.
- Sério?! Eu também!
- Peraê, Luizinho, tem Alemanha, Alasca, Aracaju, e tu bota “Alabama” também?
- É que eu não pensei em nada...
- Como assim?! Tás olhando o meu, é?
- Qual foi, doido? Claro que não... Eu só não pensei em outro lugar.
- Oxe! Tinha Argentina, Austrália, Acre...
- E só me veio “Alabama”.
- Umpf.
- “Umpf” o quê?
- Nada, velho. Objeto?
- “Harpa”.
- Ei! Harpa é com “H”!
- É não, é com “A”.
- Óbvio que não é com “A”! É com “H”. Cadê o dicionário?
- Não tem dicionário nessa casa, não.
- E o que é aquele “Aurélio” ali na estante?
- Qual?... Aquilo?... É uma enciclopédia.
- Enciclopédia “Aurélio”?
- Pronto, agora deu mermo! Quer saber mais do que eu, que moro aqui?
- E precisa morar aqui pra saber que “Aurélio” é dicionário?!
- Dicionário e enciclopédia também!
- Luizinho, tu tá roubando!
- Roubando uma porra. Tu que não sabe jogar. Nem escrever!
- Putz... Na moral, velho. Tá complicado, visse?
- Vai, doido, tu botasse o quê?
- Botei o que em quê?
- Em “objeto”, né, burro?
- Ah! Botei “anel”.
- Anel?!
- Algum problema?
- Sei lá... tanto objeto com “A” por aí...
- E tu escreve “harpa”, que é com “H”?
- Velho, não vou ficar discutindo com quem não sabe escrever!
- Aham... Cor?
- Cor?! “Azul”.
-  O meu foi “amarelo”. Animal?
- “Animal” você diz primeiro!
- Por que eu vou dizer primeiro, Luiz?
- Mas eu já falei “cor” primeiro.
- Nada a ver. Eu falei a maioria primeiro.
- Deixa de frescura e fala logo!
- Eu botei “aranha”.
- Eu também!
- Mentira, Luiz! Botou nada de “aranha”! Seu papel tá em branco!
- Nada disso! Eu botei sim! Tá aqui, ó!
- Deixa eu ver...
- Tá aqui escrito.
- Deixa eu ver!
- Pra que você quer ver?
- Pra eu provar que tu não botou foi nada!
- Botei, sim! Confia em mim não, é?
- Confio não, doido! Tu tá roubando desde que começou!
- Eu não roubo, não! Peraê... Pronto!
- Você escreveu agora! A letra está toda borrada!
- É que eu escrevi rápido, só isso.
- Então! Escreveu agora!
- Não, garotão! Eu escrevi na hora de escrever.
- Isso mais parece “Amanda” que “aranha”!
- Qual é o problema da minha letra ser feia?
- Todo! O problema é todo! Você não sabe perder e fica roubando!
- Pare, velho. Bora fazer o seguinte: a gente anula “animal” e segue a vida. Beleza?
- Por quê?
- Oxe! Tu não quer aceitar o que eu escrevi e eu não faço questão de ganhar, doido, então vou deixar anular essa.
- Mermão, beleza, Luiz. Mas se tiver mais uma dessa quem para de jogar sou eu.
- Por mim, tranquilo. O que é que vem agora?
- Time de futebol.
- Eu botei Alagoano.
- Mas isso não é um time! É um estado!
- É um time, sim! Joga na segunda divisão do...

Por mais que eles tentem

Logo de dia, esperto espia, em cima do muro e tal,
A força da foice, o frio da chama, areia, espuma e cal.
E olhos do cego enxergam ao longe o rubro manto de dor
E, de novo, à noite, o tempo espera; a luta não cessa, o fogo não cansa,
As unhas se cravam, o espelho se quebra e a garganta explode assim.

E por mais que eles tentem acabar com alegria, da noite pro dia, vão ver:
As unhas da águia manchadas de sangue, dos ratos do meu jardim.
As unhas da águia manchadas de sangue, dos ratos do meu jardim.

No lento compasso, a dobra do aço, a mancha de lama e suor
O prêmio aguarda, as duas mãos pardas, a trama, o silêncio e só.
E brota das rochas, valente e bruta, a rosa de ouro e esplendor.
E, de novo, a noite, o tempo despacha; a luta já finda, o fogo se cansa,
As unhas se largam, o espelho se ergue e a garganta explode assim.

E por mais que eles tentem acabar com alegria, da noite pro dia, vão ver:
As unhas da águia manchadas de sangue, dos ratos do meu jardim.
As unhas da águia manchadas de sangue, dos ratos do meu jardim.

Sem mim

Para casa
Agora eu vou
Dormir.
Só quero
É fogo

Preto,

Mas não tem jeito
Se é assim
O que há de fazer?
Fogo?!
Não nego, nem cego
A faca
No pescoço
Tão longo
Tão fino,
Um mimo
Do mínimo
Esforço, seu moço.
Talvez saiba
Que o fim
Da navalha

É

A boca do fosso,
Mas...
Nem ouço.
Só quero poder
Mamar
Nas tetas magras
Da estreita avenida
Tão cheia,
Tão cheia,
Chega arrepia
A espinha.
No fundo,
Passeia
A triste poeira
Da última sílaba
Da última linha
Da minha poesia, que

Sem mim

Não vale é nada.