2016 e suas mulheres

Era uma manhã de agosto e o meu telefone na redação começou a tocar.

- Estado...
- Alô, eu queria falar com o Felipe, por favor.
- Sim, é ele. Quem fala?
- Aqui é a Rosa.

Dona Rosa, eu sabia, era a mãe de Wilker Osório, um rapaz, 29 anos, ajudante de pedreiro, morador de Barueri. Não esperava que ela me ligasse. Um dia antes, eu havia ido até a casa deles, mas, como não encontrei ninguém, deixei na caixa de correio o meu cartão e um bilhete. "Estou fazendo uma reportagem e gostaria que a senhora pudesse falar comigo".

Wilker era uma das 23 vítimas da maior chacina da história de São Paulo. Foi assassinado com quarenta tiros. Sempre que eu me lembro que foram quarenta tiros, faço a contagem na cabeça: um, dois, três, quatro, cinco, reticências, reticências. Acho que dá um pouco a dimensão.

Quarenta tiros contra um Wilker que voltava a pé do trabalho, trazendo uma mochila nas costas e, dentro dela, a marmita, os talheres, hortelã e capim-santo. As folhas foram colhidas para uma Dona Rosa que estava resfriada. É claro que ela nunca bebeu o chá. Foram um, dois, três, quatro, cinco, reticências, reticências, contra um Wilker que voltava a pé do trabalho, trazendo uma mochila nas costas. Voltava a pé do trabalho. Quarenta tiros é reticência demais.

Antes da conversa, Dona Rosa me perguntou se eu sabia de duas viaturas que ficaram passando pela frente da casa no mesmo dia em que eu fui lá. Respondi, sinceramente, que não. Ela, sem motivo para acreditar, não sabia quem eu era, nunca viu meu rosto, acreditou. Na minha vez, pedi desculpa pelo assunto, imaginava que doesse. Ela me disse que doía, sim, mas que alguém precisava falar.

Me senti idiota perguntando "quem era Wilker", "que tipo de lembrança a senhora guarda dele", "como a senhora recebeu a notícia naquele 13 de agosto", "o que mudou um ano depois, Dona Rosa". Sempre me sinto idiota fazendo pergunta a uma mãe que perdeu o filho. Pergunto sobre algo que eu sei que não posso dimensionar, que não está ao meu alcance. No máximo, talvez eu consiga captar alguns elementos, algumas nuances, e colocá-los em perspectiva. Colocá-los em palavras que vão preencher três, quatro parágrafos na esperança, sem garantia nenhuma, de que também deixem umas reticências por aí.

Toda vez que eu pedia desculpa e que Dona Rosa me respondia "tudo bem, meu filho, alguém precisa falar", eu ficava mais impactado. Dona Rosa falou que, desde a morte do filho, não conseguia mais pagar o aluguel de R$ 740 (um cálculo rápido, quarenta balas de .40, em 2015, chegavam a custar algo como R$ 340). Falou que passou a morar com uma irmã que estava com câncer e que escondeu as fotos do filho para que o assunto não tomasse conta da casa. Disse que estava cansada, mas que não deixava transparecer. Achava que tinha que ser forte pelos outros. Quando chorava, chorava escondida.

Desliguei o telefone e não escondi o choro. Sentada pertinho de mim, a Gi, que é uma das amigas a quem eu peço opinião sobre textos antes de publicá-los, me abraçou e, generosa que é, emprestou os ouvidos. Eu disse que não dava mais conta, não tinha sobrado víscera para isso, não. Era a terceira matéria grande em menos de seis meses que eu precisava conversar com familiares de pessoas assassinadas (antes, tinha publicado o especial de "Mortes Suspeitas" e "Dez anos dos ataques do PCC").

Este texto não é sobre tristeza, é sobre aprendizado. Desci para fumar um cigarro e pensei na minha mãe, no meu pai, minhas irmãs, minha vó. Pensei em Mayra, esse presente que a vida me deu. Nos meus amigos que, não importa a circunstância nem a geografia, estão sempre por perto. E no tempo que eu perco reclamando da camisa que rasgou, da passagem que está cara, do plano que não deu certo - com a vida aí, velho, com esse tanto de gente para a gente amar.

Escolhi falar de Dona Rosa no último dia do ano porque ela foi uma das várias mulheres dispostas a dividir a força com que vivem a vida. Pessoalmente, tive o privilégio de conhecer Alieti, avó de Tainá. Vera Lúcia, mãe de Ana Paula. Maria Sônia, mãe de Wagner. Edinalva, mãe de Marcos. Débora, mãe de Rogério. Carla, mãe de Nivea - essa última uma bebezinha de dois meses que encontrei no Hospital Oswaldo Cruz, referência no tratamento de microcefalia em Pernambuco. Meu agradecimento a todas elas por permitirem que eu me tornasse uma pessoa um pouquinho melhor.

Falem o que for, 2016, para mim, foi um ano foda. Até teve suas perdas, algumas delas bem pesadas, mas nada que me forçou a sair escondendo retratos. Passei a maior parte do ano rodeado de pessoas queridas em casa, na redação e na rua. Troquei ideia com referências do Jornalismo, com estudantes, com colegas, com amigos. Conheci um monte de gente disposta a compreender o outro, a não se levar tão a sério assim e a tomar cerveja de buenas numa quarta à noite.

Consegui viajar, consegui ver minha família mais de uma vez e consegui passar o carnaval no Recife (coisa que não acontecia há seculos). 2016 também me permitiu redescobrir pessoas incríveis e me devolveu a capacidade de amar sem reticências. Há uns bons anos eu não me sentia tão vivo e tão inteiro, e nem dava início aos próximos 365 dias com tantos projetos na agulha. Então, maninho, eu só tenho a agradecer.

Muito, muito obrigado.

Eu, tu, eles

Valéria gosta de cheirar o dedo depois de espremer os cravos do nariz
Antenor nunca saiu de casa sem lustrar a aliança com pasta de dente
Iara ouve música tailandesa no volume máximo para estudar direito penal

Tamires sente falta de ar se cobrir os pés com o lençol na hora de dormir
Osmar usa a palavra "empoderamento" toda vez que fala com a empregada
Mateus não publica nenhuma foto com menos de seis hashtags
Aureliana faz questão de lavar a banana depois de tirar a casca
Ramos vê cartoon network quando fecha uma venda de bauxita para a china

Nilo atendeu os conselhos do pastor e agora reza para ter polução noturna
Ondina começou as aulas de russo porque quer ler maiakovski no original

Carmen aperta dois andares a menos no elevador e sobe o resto de escada
Ugo comprou um estetoscópio e consegue ouvir melhor a vizinha gemendo

em qualquer esquina

o fruto de angico secou
não sei se por insistência do sol sobre os galhos
ou se por demais repisado quando no chão.
mas da concha longilínea sobrou uma massa dura e marrom,
inteiramente esfolada
mantendo, vá lá, duas ou três sementes entre os fiapos da casca,
apesar de tudo, ainda rica em taninos.
o que nada quer dizer.

os frutos de angico são deiscentes,
e, se isso também pouco lhe diz,
imagine um relógio incrustado no tronco da árvore
que, na real, não existe
nele, há uma hora xis para que a concha
se abra em fenda, num momento de flor resignada,
deixando livre meia dúzia de sementes.
nem todos os frutos de angico são pontuais.

as sementes de angico também são marrons,
mas arredondadas e glabras, o que,
subtraindo o exibicionismo linguístico dos botânicos,
quer dizer simplesmente sem pelos.
nelas, há apenas dois-vírgula-poucos-porcento de bufotenina,
um alcaloide que atua diretamente no córtex cerebral
e, veja só, deriva da serotonina.
dizem que os yanomami a aproveitam na fabricação de alucinógenos.
nunca vi um yanomami passeando em são paulo.

na rua onde o fruto de angico caiu, há árvores a cada sete metros
e à noite desenham sombras duras com o amarelo dos postes
ficam as sombras e a tonalidade amarelada,
dos cartazes que o tempo descolore, lembra?
talvez semelhante à da espada de iansã, quando espeta o sol
ou a de uma infecção hepática.
todos os postes funcionam perfeitamente.
os moradores reclamam da iluminação precária
e do risco permanente de assalto.
os que dormem sob as folhas de angico são os que mais reclamam.

num instante qualquer, sopra uma brisa forte rua acima,
que vai marcando curiosas espirais, girando, girando, girando
a gente vê o vento por causa da poeira
e a gente vê o tempo por causa da poeira
girando, girando
parece, sei lá, uma cena fajuta, meio filme sessão da tarde
mas a trilha sonora era boa
o farfalhar dos farelos de lixo e dos restos de folhas pisadas
contra o silêncio da rua.
girando.
ao fundo, o cheiro de bosta de gente gotejada na calçada.

um bêbado agora tenta subir a rua aos tropeços,
sete metros separam uma árvore da outra.
até que se apoia no angico para coçar a virilha.
usa uma calça rota, camisa amarela e sandálias havaianas só a tala.
leva um cigarro na boca que parece já ter apagado há duas semanas.
ao se dar conta, descarta a bituca rente ao meio-fio,
depois, no vazio, arrisca uma cusparada.
e o vento não leva.

só quando foi entrar em casa, umas trinta cervejas dali,
percebeu a sandália suja de merda
na merda ainda pendia uma semente seca, como uma pérola presa.
afirmativa falsa, contudo
porque angico é daquelas árvores que dão em qualquer esquina.

Selva Selvaggia

(ou Atravessando um artigo do Roberto Campos)

Millôr Fernandes, O Pasquim - Nº38

De repente um terror me sacode. Penetrei distraído e sinto que estou perdido na terrível floresta de linguagem do Roberto Campos. Ignorando a estrada sintática, ele me trouxe a zonas praticamente intransponíveis. Sem querer me entregar ao medo, vou tropeçando em anglicismos, datinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos. Caio no areal dos solecismos e sou mordido por vários anacolutos. A custo, afastando duas redundâncias e esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles, agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento essencial. Porém, hibridismos me barram o caminho. Ensurdecido por rotacismos e lambdacismos, arranhado por orações anfibológicas, recuo para cair no terrível cipoal da regência robertiana, de onde raros escapam com vida. Galhos de corruptelas me cortam o rosto, enquanto sufoco com o cheiro dos defectivos. Ponho o pé num nome próprio que acho seguro, mas logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga, me protejo com uma próclise, evitando duas espantosas mesóclises e aproveito um advérbio de negação para atrair três pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras. Estou esgotado: felizmente - coisa rara neste tremedal! - surge a clareira de um parágrafo.


Voltar não é mais possível. Avanço pois, abrindo parênteses onde enfio arcaismos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes. Uma silépse espera-me mais à frente. Desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopeia e sou envolvido por diversos parequemas a que logo se juntam odiosas ressonâncias verbais. Descanso sobre reticências, quando ouço o tantã de interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipses. Apócopes! Escapo pela picada do eufemismo e paro para respirar no fim de um período simples. Avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófatos, esbarro em cacografias, empurro cacologias, me arrasto pela cacoépia. Estou sufocado de exaustão diante de uma centena de substantivos promíscuos, já desespero, quando percebo o ponto final.



Estou salvo - Roberto Campos acaba sempre num lugar-comum.

Os vivos do Castelo

Foto: Milton Kaor Nishida/Divulgação

Basta espichar a vista por cima do muro para perceber: a decadência do Castelinho da Rua Apa, na esquina com a Avenida São João, no centro de São Paulo, é de uma obscenidade dolorosa. Construído em 1912, pela família do médico Vicente César dos Reis, o imóvel guarda poucas lembranças dos seus dias suntuosos e das muitas festas para a alta sociedade paulistana. Do lado de fora, a fachada, de pretensa elegância, se vê carcomida por grandes rasgos de tijolos aparentes, como costelas expostas de um corpo qualquer apodrecendo ao relento. No telhado, a lona azul substitui a cobertura que o tempo, há muito, corroeu. As madeiras das portas e janelas estão podres; as grades, enferrujadas. De vivo, há os pombos. E as trepadeiras que descem as sacadas aproveitando cada palmo de parede que o abandono oferece.

Aos 63 anos, Maria Eulina sabe muito bem o que é estar entregue à própria sorte. Hoje, quem a avista de relance nem imagina que aquela senhora baixinha, de fala ligeira e feição decidida, foi moradora de rua. Viúva de um executivo bem-sucedido, ela é o avesso do que, socialmente, convencionou-se chamar decadência. Ainda assim, faz questão de guardar muitas lembranças dos seus dias menos suntuosos. Em 1971, partiu de São José dos Basílios, no interior do Maranhão, onde ficava a fazenda do pai, rumo a São Paulo. Em pouco tempo, se viu desempregada, sozinha e sem ter onde morar. Ao todo, foram 19 meses fazendo do asfalto a cama. E das sobras de comida dos outros o sabor do próprio banquete.

Aparentemente inversos, os caminhos de Maria Eulina e do Castelinho da Rua Apa se cruzaram em 1997. Desde então, é na edícula do imóvel, uma área de aproximadamente 600 m² anexa ao casarão, que funciona a ONG Clube de Mães do Brasil, fundada e presidida pela maranhense. “Quando eu morava nas ruas, olhava para o Castelinho e dizia: ‘Você vai ser a sede do meu trabalho social’”, conta. A instituição oferece cursos profissionalizantes e serviços de apoio, como refeição e abrigo, aos moradores de rua no bairro de Santa Cecília. Muitos, entre eles, ex-detentos e dependentes químicos. Ao entrar para algum projeto da ONG, todos recebem o mesmo aviso: “Eu não quero saber o que você já fez. Mas o que você vai fazer a partir de agora”. Maria Eulina estima ter beneficiado, no mínimo, 70 mil pessoas. “Eu garimpo vidas."

Em geral, o Clube de Mães do Brasil sobrevive da venda de produtos feitos com material reciclado, que ganham forma nas mãos de homens e mulheres assistidos na ONG. Os principais artigos são bolsas e sacolas costuradas a partir de retalhos de tecido, rendas de papel e banners de propaganda. O que antes era lixo chega a ser vendido por até R$ 100 em uma das três lojas da instituição espalhadas pela cidade. “Nosso objetivo é ser economicamente autossustentável”, afirma a maranhense, para quem pedir dinheiro não fazia parte da cartilha nem quando se viu abandonada nas ruas. “A auto-estima cai, ao estender a mão para receber esmola”, argumenta. Que não se confunda, no entanto, com vaidade. Maria Eulina não é de extravagâncias. Veste bermuda jeans, sandália vermelha de couro simples e avental roxo, enquanto trabalha. Estendendo a mão.

Foto: Reprodução/Internet

Restaurar a história de pessoas não é o único desafio dela. Em maio de 1932, o Castelinho foi cenário de um dos crimes mais famosos da cidade, cujas circunstâncias jamais ficaram esclarecidas. De acordo com a versão da polícia, o filho do proprietário do casarão, Álvaro César dos Reis, na época com 45 anos, matou a tiros a própria mãe, Maria Cândida, de 73 anos, e o irmão mais novo, Armando, de 43. Depois, se suicidou com dois disparos. Dois: por mais improvável que possa parecer para um suicídio. O imóvel, que ganhou a pecha de mal-assombrado e engrossou o repertório de lendas urbanas da capital paulista, se tornou propriedade da União em 1987. De lá para cá, nenhuma reforma foi feita. Em 2004, o Castelinho foi tombado. Um patrimônio histórico de São Paulo.

Já com muito preconceitos para combater, Maria Eulina é lacônica quando a conversa tangencia o assunto. Claramente, prefere deixar o episódio dos assassinatos restrito a inquéritos policiais e arquivos de jornais. “Eu me foco na vida”, resume. Falar em fantasmas, gritos no meio da noite ou casa amaldiçoada? Pura baboseira. “O Castelinho nada mais é do que o espaço físico para transformação de histórias.” A transformação física dele mesmo, entretanto, tem sido difícil de gerenciar. O projeto de restauração foi autorizado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Conpresp) em 2011 e, desde então, o Clube de Mães do Brasil procura investidores privados para viabilizar a reforma, estimada em R$ 3 milhões. A previsão é que as obras tenham início a partir de março de 2014. Até lá, permanecem as trepadeiras volumosas e os pombos. De vivo, pelo menos.

A liberdade de Midori Aoshima

Quando Midori Aoshima frequentava a escola no Japão, o país estava a caminho da Segunda Guerra Mundial. Entre as lembranças da sala de aula, não sai da memória a vez em que a professora perguntou: “O que vocês querem ser quando crescer?”. Prontamente, os colegas de classe se envaideceram. “Quero ser piloto de avião.” “Eu vou fabricar armas.” “Fazer engenharia naval é o meu sonho.” Pouco contagiado pela euforia bélica daquele momento, Aoshima disse com sinceridade: “Quero ser pintor”. Recebeu dez chicotadas de castigo.

Hoje um senhor de 80 anos, Midori Aoshima mantém a voz mansa enquanto conversa. Fala baixinho, quase num sussurro, um português de poucas palavras que, não raro, troca o L pelo R, né?!, como fazem os humoristas imitando os imigrantes japoneses. Desde os 23 anos, Aoshima vive no Brasil bem distante de qualquer conflito de ordem militar. Se por capricho do destino viesse a rever a tal professora, certamente ouviria que ele é uma causa pedagógica perdida. Nas mãos, nada de armas: apenas tinta e pincel. Instrumentos que utiliza para dar expressão a talhas de madeira, confeccionando peças de artesanato japonês.

Dificilmente, o lugar onde Aoshima expõe seu trabalho poderia ter um nome melhor. Liberdade, a praça no centro de São Paulo famosa por ser um reduto da cultura oriental no Brasil. Aos sábados e domingos, o local é tomado por 50 barracas coloridas de vermelho e branco, que oferecem de souvenir exótico à comida típica daquelas bandas de olhinhos puxados. Em uma delas, Aoshima aguarda, pacientemente recostado na cadeira, quem admire - e compre - o que sabe fazer de melhor: Kokeshi e Daruma.

Kokeshi é uma bonequinha de tradição milenar que, segundo se acredita, traz sorte às famílias. Ela não tem braço nem perna. Apenas o tronco cilíndrico e a cabeça desproporcionalmente crescida. Aoshima fabrica mais de trinta modelos diferentes, enfeitando-os sempre com cores vivas e caracteres kanji, aqueles símbolos incompreensíveis do alfabeto pictórico japonês. Um trabalho minucioso, que requer bastante precisão para pintar todas as linhas, bem fininhas, na medida certa.

O Daruma, um rosto de olhos opacos, talvez seja ainda mais interessante. Ele funciona da seguinte forma: pinta-se um dos olhos depois de fazer um pedido, o outro permanece sem cor até que o desejo se realize. “Caia sete vezes, levante oito”, diz o provérbio que o inspirou, em clara referência à ideia de não medir esforços diante de um objetivo traçado.

Mas nem sempre Aoshima conseguiu viver de artesanato. Inicialmente, ele veio ao Brasil para trabalhar numa empresa japonesa, que faliu um ano e meio depois. Contudo o desprezo pelo fracasso - um dos insistentes traços orientais - o impediu de retomar o caminho da antiga casa. “Tive vergonha de voltar, né?!”, conta sem muito constrangimento. De lá para cá, recorreu à lavoura, deu expediente na indústria, encontrou um jeito ou outro de sobreviver. Também se casou com uma brasileira, com quem teve três filhos. Aoshima nunca mais pisou no Japão.

Há cinco anos na Feira da Liberdade, o artesão aproveita a aposentadoria para realizar o desejo da juventude. É, depois de tudo, um desobediente ou um perseverante, dependendo do ângulo em que se olha: de professor ou de Daruma. Mas que soube retribuir
oferecendo a possibilidade de cada um - ao pintar um naco de madeira ou um simples olhinho - poder escolher o que bem entender.




Um vestido de linho impecável na memória


O muro altivo de azulejo negro já foi cerca de arame, barro queimado, chão de terra batida. Hoje, não se afunda mais os pés na lama em dias de chuva, mas o mucambo ainda sobrevive nos hábitos. Há 76 anos, Zeca mora na Rua 12 de Outubro, no nobre bairro dos Aflitos. Quando não está costurando, ela passa horas a fio na calçada, em constante indiscrição aos destinos da vida alheia. Fica sentada no banquinho de madeira, “vendo o povo encher a rua de perna”, como gosta de dizer. Afeita a conversas, é sempre solícita com quem lhe bate à porta. Toc toc toc. “Pode entrar, aqui só paga a saída.”

Por dentro, a casa é muito simples; no sofá de três lugares, o tecido do forro, em estampas floridas, é o mesmo da cortina que divide a sala apertada dos demais aposentos. O teto é baixo; o telhado, aparente. Em cima da cômoda, a imagem de Santa Rita de Cássia – ganhou de aniversário em março – vela suas causas impossíveis. “Agorinha, Verônica me deu um dinheiro que estava perdido faz uma semana. Eu já peguei nele hoje cedo, e não sei onde botei”, conta, com uma dicção marcada por ênfases precisas, enquanto revira, em vão, um monte de papéis espalhados. Desde que sofreu um princípio de acidente vascular cerebral, há quase dois anos, é a filha quem vai receber a aposentadoria no seu lugar.

Quando, enfim, desiste da busca, se derrama feito criança na cadeira de plástico – a postura torta, a perna apoiada num canto mais alto. Fica contente em falar de si mesma, de ter sido uma das poucas na rua que aprendeu a confeccionar calça comprida ou de como preparou à mão o enxoval das três meninas em opala e cambraia zebrinha. “Até os casaquinhos de flanela para dormir, tudo com o viesinho, eu procurava caprichar”, diz. Apenas algumas vezes, mantém a frase suspensa: recavando palavra perdida nas gavetas da memória. Datas e nomes, em especial os mais recentes, lhe escapam com certa frequência. E isso a tem preocupado bastante.

Naquela casa, as paredes ainda estão rabiscadas por travessura de miúdos. Mas ali não há mais crianças: o neto mais novo completa quinze mês que vem. Tudo parece, quase confessadamente, remeter ao passado. E nada com tanto impacto quanto a máquina de costura reta, que fica bem no meio da sala, ocupando, se duvidar, um terço do espaço. Uma Singer autêntica, com suporte de metal rendado - um tanto desgastado, é verdade - mas ainda assim conservando certo ar de requinte. Para funcionar a agulha, nada de eletricidade: o dorso do pé precisa compassar harmonicamente o pedal de ferro fundido. Subindo e descendo, subindo e descendo. “Quando veio para a minha mão ela estava com uns cinquenta anos, do jeito que chegou deixei”, conta, apontando  os cordões remendados que reforçam a correia já velhinha. “Madrinha quem mandou do Rio de Janeiro, trabalhava em casa de família inglesa”, completa. Nunca - nunca, ouvi bem?! - permitiu que alguém tocasse nela.

Por trás dos grossos óculos de grau, os olhos orgulhosos admitem: “Costurar foi o único serviço que eu fiz na minha vida toda”. Ela interrompeu o colégio na quarta série; os estudos não atendiam às necessidades imediatas da família, pobre. Aos treze, viu no jornal o anúncio de uma venda na Rua das Pernambucanas, perto dali: contratavam-se dedos ágeis para chulear, fazer caseamento, abanhado, pregar botão, gola ou punho. “Eu não sabia nada, terminei aprendendo lá mesmo”, revela. Das primeiras tarefas de acabamento para a incursão em corte e costura foi um pulo, antes dos vinte já trabalhava por conta própria.

Naquele tempo, a 12 de Outubro era repleta de costureiras. Em poucos segundos, Zeca é capaz de nomear um punhado de exemplos. Margarida, Dona Maria, Dona Aurora, Maria do Monte, Dona Inesinha. Todas vizinhas. Nos dias atuais, resta apenas uma. “O pessoal agora compra muito roupa aprontada”, justifica, elucidando também o motivo pelo qual vê sua atividade praticamente reduzida a pequenos consertos.

De acordo com o jornalista Phelipe Rodrigues, que é especialista em moda, os tempos áureos da costura já findaram há anos. “Até a década de 1960, as lojas de tecido, chamadas fazendas, eram comuns na cidade do Recife. Hoje, há o fast fashion, mais prático e mais rápido; empreendido pelas empresas de moda que oferecem o prêt-à-porter”, no bom português, pronto para vestir. “O papel da costureira se tornou quase exótico, é um momento de exceção, em que se recorre quando há uma festa de quinze anos, um casamento. É como beber champanhe: se muito, uma vez ou outra.”

De fato, cada vestido de organdi demandava tirar as medidas do ombro, busto, cintura, quadril; fazer o molde, cortar, montar, para só então poder ser posto à prova. “Já manheci muito dia na máquina de costura”, recorda Zeca, que sempre preferiu as noites para percorrer tecidos em linha. Hoje, só recebe mesmo quem a conhece de outrora: nem a plaquinha em que se permitia ler costura-se fica mais pendurada no muro altivo de azulejo negro, que já foi cerca de arame, barro queimado, chão de terra. Três batidas na porta. Toc toc toc. “Pode entrar”. – Quanto ficou, Dona Zeca? A moça bem vestida (“mora no prédio da outra rua”) recolheu a sacola plástica, calção e saia bem dobrados, e, sem troco para vinte, saiu sem pagar. 

                                                                    *** 

Há dois anos, Zeca – que na verdade se chama Maria José Tibúrcio Duarte – enfrenta intermitentes internações em hospitais, em virtude da pressão alta e de ataques isquêmicos. “Estou me sentindo muito deprimida, porque não tenho mais cabeça para fazer o que fazia antes”, manifesta a costureira que perdeu o controle sobre quantos remédios precisa tomar. Desde então, a morte aparece obscenamente no seu discurso. Ao mencionar as pessoas que um dia conheceu (são muitas), mas que já faleceram, acrescenta sempre o prefixo finado (“que Deus o ponha em bom lugar”, logo depois). Se a memória falha, ela balança a cabeça, estala a língua, demonstra irritação consigo mesma. “Qualquer dia desses, você recebe a notícia que eu fui embora.”

A contar do nascimento, Zeca passou a reunir ausências. De imediato, dos pais. Foi criada pela avó viúva, Dona Joana Evangelista, e por Gina, a tia por parte de mãe que, a vida inteira resguardada, definhou naquela casa, compartilhando do mesmo teto, “sem botar uma vela, sem nada”. “No velório dela a funerária trouxe um véu roxo, eu mandei trocar por um branco”, relata em decoro à castidade da tia. Como a família não permitiu a realização da autópsia, a causa mortis foi condenada à dúvida. “Ela nunca se casou, nunca namorou. Abrir o corpo depois de morta seria desrespeito.”

Das recordações da mãe, Firmina Duarte, com quem “nunca tive conversa, dizem até que costurava muito bem”, guarda o dia em que ela tomou os rumos do Rio de Janeiro à bordo de um navio. “Ela veio aqui em casa se despedir da gente. Eu era muito pequena, mas – veja como são as coisas – me lembro bem do vestido que usou para viajar: todo cor de rosa, de linho. Fui abraçar, assim, pela cintura; ela segurou meus braços, para não amassar o vestido.” As lembranças do pai – na certidão de nascimento, Severino Tibúrcio Duarte – são, contudo, ainda mais inquietantes. “Ele morreu e nunca chegou a saber da minha existência”, conta, sem economizar no tom do advérbio.

Nas vezes em que as irmãs mais velhas, Célia e Zélia, eram levadas pela vizinha (a finada Dona Olímpia), para visitá-lo, Zeca era privada do passeio e tinha de permanecer sob os cuidados da avó. “Sempre fui tratada de forma diferente, e não entendia por que”, diz. “Eu me lembro, a casa era um mucambo mesmo, no canto tinha uma mesa, que ele vinha tomar café de vez em quando com vó de noite. Era só ele chegar que Gina me levava lá para o fundo, para ver o quintal. Tinha manga, sapotizeiro, bananeira, pé de fruta-pão, tudo que eu sabia que tinha."

O motivo de tanto esforço para minimizar a margem de encontro entre pai e filha manteve-se em segredo por todos da casa. Sobre isso, Zeca só veio tomar tino durante uma das muitas conversas de rua, em que, sentada no banquinho de madeira, viu a indiscrição do próprio destino ser escancarada por um conhecido da família. Severino era caboclo; Firmina, negra. As duas irmãs mais velhas: tez escura, cabelo crespo. Zeca nasceu com a pele branca e o cabelo claro. “A coisa melhor do mundo que achei nessa entrevista foi que nunca tive oportunidade de falar isso com ninguém.” Julguei que era uma confissão sincera. Meio sem jeito, agradeci pelo encontro, disse que voltava para mostrar o texto; quando me respondeu. “Sabe, estou até pensando em colocar a plaquinha de novo.”

Entre o sim e o não

Se é verdade que os únicos paraísos são os que se perderam, sei como devo chamar essa coisa terna e desumana que existe hoje em mim. Um emigrante volta à sua pátria. E eu, eu me lembro: ironia, resistência, tudo se cala, e eis-me repatriado. Não quero ruminar a felicidade. É bem mais simples e é bem mais fácil. Pois destas horas que, do fundo do esquecimento, trago de volta para mim, conservou-se, sobretudo, a lembrança intacta de uma emoção pura, de um instante suspenso na eternidade. Esta é a única verdade em mim. Amamos a flexão de um gesto, a oportunidade de uma árvore na paisagem. E, para recriar todo esse amor, só temos um detalhe, mas que é suficiente: um cheiro de quarto que ficou muito tempo fechado, o som singular de um passo na estrada. Comigo também é assim. E se eu amava, então, ao entregar-me, enfim eu era eu mesmo, já que só o amor nos faz sermos nós mesmos.

Lentas, calmas e graves, essas horas voltam, tão fortes, tão comoventes - porque anoitece, a hora é triste e há uma espécie de desejo vago no céu sem luz. Cada gesto reencontrado me revela a mim mesmo. Disseram-me um dia: "É tão difícil viver." E eu me lembro do tom. De outra vez, alguém murmurou: "O pior erro é fazer sofrer." Quando tudo acaba, a sede de vida se extingue. É a isso que se chama felicidade? Ao percorrer essas lembranças, vestimos tudo com a mesma roupagem discreta, e a morte nos surge como um pano de fundo em tons envelhecidos. Mudamos de opinião sobre nós mesmos. Sentimos nosso infortúnio e dele gostamos mais. Sim, talvez seja a felicidade, o sentimento piedoso de nossa infelicidade.

(...) E eis-me de novo repatriado. Penso em um menino que viveu em um bairro pobre. Aquele bairro, aquela casa! Só havia um andar e a escada não era iluminada. Ainda hoje, depois de tantos anos, ele poderia voltar para lá em plena noite. Sabe que subiria a escada com toda a velocidade, sem tropeçar uma única vez.

- Albert Camus, aos 22 anos. Como nós.

Pelo direito ao besteirol digital



Na sacada que faz um bom quadrinista, Bruno Maron arrematou: “Cézanne, o tataravô do Instagram”. Jocosamente, o designer carioca aludiu a natureza morta pós-impressionista do século 19 à atual mania irrefreável de fotografar comidas, alimentada por tantos usuários do aplicativo pertencente ao Facebook. No balão, o pensamento “as pessoas precisam (grifado mesmo) saber o que eu estou comendo agora”, traduz uma crítica sutil, por associação. E, ao que parece, o compartilhamento de informações estritamente pessoais, que vão de check-ins em paradas de ônibus a registros em velórios, tem incomodado muita, muita gente.

Em tempo, a internet já foi tratada como panaceia, já se tornou o espaço de todos os males, amém, – e, hoje, nessa demência de rotulação, a verdade é que ninguém é lúcido o suficiente para entender com exatidão a potencialidade que ela pode representar de fato. Fala-se muito em web três ponto zero, o reino da interatividade, em que todos são autores de notícia, et cetera e tal. Mas as repercussões disso tudo ainda estão sendo deglutidas. E no passo digestivo dos ruminantes. Essa espécie de perplexidade geral oferece terreno para um deslize comum: imputar supostos erros de conduta na plataforma, que é apenas uma ferramenta. Ilustrando, diz-se “a internet expõe muito as pessoas”. Não. Os usuários se expõem por meio da internet. O porquê de se expor são outros quinhentos, que pouco tem a ver com o instrumento propriamente dito. Vamos lá.

Comunicar só vem do latim o termo. A necessidade humana, em si, em muito precede o encontro das miríades gentílicas no Lácio. Ela nasce do esforço em resolver os conflitos de alcance entre os indivíduos e, evidentemente, data da origem deles. Antes de qualquer império, já havia o batucar dos tantãs, as pinturas rupestres. E, por trás disso, a procura por revelar, através de representações, estados de espírito, sensações, ideias, experiências... Num paralelo possível, é o óbvio ululante que a internet modificou o fluxo de informações veiculadas e as formas paleolíticas de interagir – mas não a natureza do ato.

A origem etimológica do termo comunicar nos oferece uma pista provocadora. Tornar comum. Numa observação mais cuidadosa, contudo, passei a entender comunicar como soerguer janelas de plural ventilação nos edifícios dos universos inevitavelmente particulares. Aprofundo em seguida.

Doutor pela Michigan State University, o professor Juan Bordenave defende que a comunicação “serve para que as pessoas se relacionem entre si, transformando-se mutuamente e a realidade que as rodeia”. Da afirmativa de Bordenave é possível inferir, portanto, que a ação comunicativa, se não deriva, ao menos está posta em correlação com determinada realidade vivenciada – que sofrerá tais mudanças. No entanto, desse vínculo inquebrantável sobrevém uma questão filosófica fundamental, a qual o professor não satisfaz: do que se trata a realidade?!

Há quase quatrocentos anos, o francês René Descartes, consciente da soberania da dúvida, danou-se a questionar a própria existência do homem. Das incursões, que o levariam à supracitada frase-monumento “penso, logo existo”, uma pergunta merece especial destaque. Qual a garantia em considerar a vida – que segue um perceptível enquadramento lógico (não voamos por dupla culpa da gravidade e da nossa anatomia, por exemplo) – algo real, se, durante o sono, as ocorrências oníricas fazem pleno sentido?! Não seria a vida, por extensão possível, uma variável do sonho?!

A Literatura incorporou essa inquietação através do non sense, recurso que se vale da exploração de cenas, a priori, absurdas, muito embora precisem fazer sentido em nome do conjunto narrativo. E chegou a um resultado conceitual interessante. Trata-se de uma obviedade (de novo), mas que nem sempre nos damos conta: em virtude até do aparato biológico, eu não percebo o mundo da mesma maneira que você, leitor, nem de qualquer outra pessoa. A grande sacada, em fim (e não enfim), se constrói por meio dessa estratégia de negar qualquer imposição da realidade, já que estranhar o absurdo (a percepção do outro) é esbarrar no “absurdo real” (a forma com que percebemos a realidade) de nós mesmos. Mais talentoso com as palavras, Fernando Pessoa abordaria esse fenômeno da seguinte forma:

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.



Noves fora, zero: insistir na realidade – do regime único de percepção, para ser enfático – não passa de mero preconceito retórico. Por tabela, comunicar é tentar tornar comum. Aproximar ao máximo. Mas a tentativa é em parte frustrada, porque ninguém é capaz de sentir de forma genuína as motivações do comunicador ao se expressar. O contato se dá com a representação – uma imagem, uma fala, um texto, uma música – e não com o sentimento, a essência. Todo esse passeio, à primeira vista um tanto distante da discussão propriamente dita, serve para fundamentar que, no fim das contas, cada um é cada um. E, se a comunicação de fato permite mudar alguém, como levanta o professor Bordenave, é só a si mesmo (o que não quer dizer que apenas uma pessoa possa ser transformada em um processo comunicativo). Bingo.

Não há elemento argumentativo forte o suficiente para tornar ilegítima a divulgação de “irrelevâncias” na grande rede. Quem for dono da própria vida que faça o que quiser com ela. O resto é intrometimento. Até porque nem só disso vive a internet: cada qual com seu nicho. A única ressalva a ser feita é quando esse comportamento expositivo interfere em terceiros. Um exemplo claro (de outros possíveis) é dos restaurantes pouco afeitos à propaganda popular que se sentem incomodados quando os cliques, que antecedem as curtidas no instagram, atrapalham a liturgia do local. Nesse caso, por se tratar de um estabelecimento privado, com suas próprias regras e concepções, os clientes devem se adequar. Ou não consumir. Ponto.

Em suma, não é possível mensurar precisamente o que leva alguém a se expor, a não ser quando essa análise é feita pela própria pessoa – e olhe lá. De toda forma, as redes sociais permitem interromper os feeds de notícias, filtrando atualizações indesejadas. Aos incomodados, nos quais não me incluo, a opção de bloquear será sempre serventia da casa.

lições de começo de ano

lição um: a maior cagada que alguém pode fazer na vida é tomar distância das pessoas que ama afiançado no amor de uma única pessoa

lição dois: dois mil e treze tem sido um ano de perdas. mas eu nunca tive medo de perder nada.

Grato a Ortega y Gasset pelo esclarecimento


Trata-se de uma questão de óptica extremamente simples. Para ver um objeto, precisamos acomodar de certo modo o nosso parelho ocular. Se a nossa acomodação visual é inadequada, não veremos o objeto ou o veremos mal. Imagine o leitor que estamos olhando um jardim através do vidro de uma janela. Nossos olhos se acomodarão de maneira que o raio da visão penetre o vidro, sem deter-se nele, e vá fixar-se nas flores e folhagens. Como a meta da visão é o jardim e até ele é lançado o raio visual, não veremos o vidro, nosso olhar passará através dele, sem percebê-lo. Quanto mais puro seja o vidro, menos o veremos. Porém logo, fazendo um esforço, podemos prescindir do jardim e, retraindo o raio ocular, detê-lo no vidro. Então o jardim desaparece aos nossos olhos e dele só vemos uma massa de cores confusas que parece grudada no vidro. Portanto, ver o jardim e ver o vidro da janela são duas operações incompatíveis: uma exclui a outra e requerem acomodações oculares diferentes.

Do mesmo modo, quem na obra de arte procura comover-se com os destinos de João e Maria ou de Tristão e Isolda e nele acomoda a sua percepção espiritual, não verá a obra de arte. A desgraça de Tristão só é tal desgraça e, consequentemente, só poderá comover na medida em que seja tomada como realidade. Porém, o caso é que o objeto artístico só é artístico na medida em que não é real.

(...)

Isso é uma deslealdade – diria um artista atual. Isso é prevalecer-se de uma notável fraqueza que há no homem, pela qual ele costuma contagiar-se da dor ou da alegria do próximo. Esse contágio não é de ordem espiritual, é uma repercussão mecânica, como o arrepio nos dentes que produz o riscar de uma faca sobre um vidro. Trata-se de um efeito automático, nada mais. Não vale confundir cócegas com o regozijo. (...) A arte não pode consistir no contágio psíquico, porque este é um fenômeno inconsciente e a arte deve ser toda plena claridade, meio-dia de intelecção. O pranto e o riso são esteticamente fraudes. O gesto da beleza não passa nunca da melancolia ou do sorriso. E melhor ainda se a isso não chega. (...)

Não sei, não; mas creio que o poeta jovem, quando poetiza, se propõe simplesmente ser poeta. (...) Vida é uma coisa, poesia é outra – pensam ou, ao menos, sentem. Não misturemos os dois. O poeta começa onde o homem acaba. O destino deste é viver seu itinerário humano; a missão daquele é inventar o que não existe. Desta maneira se justifica o ofício poético. O poeta aumenta o mundo, acrescenta ao real, que já está aí por si mesmo, um irreal continente. Autor vem de auctor aquele que aumenta. Os latinos chamavam assim ao general que ganhava para a pátria um novo território.

- Ortega y Gasset em A desumanização da arte

learnin' the blues



a Luiz Humberto e Nelsinho

Deu a hora: minhas pálpebras maldiziam as lâminas de sol que atravessavam sem esforço a persiana remendada. Sempre adivinho o pior lugar da cama para desabar no sono e agora toda aquela luz já havia me furado a cabeça. Por impulso natural, apertei ainda mais os olhos. A boca-semiárido, a saliva dura na ponta do lábio, reclamava água de um jeito estúpido, quase tímido, quase ordem, que só quem já tomou alguns porres de uísque sabe como é.

Quando resolvi me levantar, por pouco não fui de encontro ao chão. O pé direito, de inchado, mais parecia um anfíbio fora de catálogo; corte alongando-se do quarto dedo à base do calcanhar. Bem feio, avalio, mas não aparenta ser muito profundo – menos mau. Porra, essa casa está uma zona, cadê a minha roupa?! Desde que a cintura não consegue acompanhar o cós ando perdendo as peças pela sala. Pelo menos para isto serviu o pé: esquecer a dor de cabeça. Avisto um pano sujo, manchas escuras e vermelhas; sequer me lembro de o ter usado para estancar o sangue.

O calcanhar ajudou a vencer os passos até o banheiro com certa facilidade, embora se esquivar de garrafas vazias e maços de cigarro amassados não seja propriamente uma diversão. Preciso lavar esse corte, urgente. Tentei mover a válvula da pia no sentido anti-horário. Não adiantou. Fiz o contrário, a resposta foi um suspiro grotesco. Seco. Acho que cortaram a água nesta manhã, não tenho certeza. Mais tarde penso em como buscar um pouco lá no ribeirão – recôndito menino de pesca, onde gastava meus finais de semana com os primos –, quem sabe assim também molho o cabelo – o balde, salvo engano, reza o sono dos justos no azulejo frio da despensa. Depois eu vejo se continua lá. Com sorte, aproveito ainda para comprar gasolina no caminho e vê se aquela lata velha volta à vida.

Nessa casa não há espelhos, ninguém explica como cabia tanta gente aqui. Tenho que sair dessa: até quando meu dinheiro duraria no turismo predatório de lesbos, as franjas douradas de praia?! Especulei duas semanas. Depois foi só eu ter passado uns dias com o abreu, transferido pela agência para o amapá, lembram?! Não quis incomodar com correspondências, as conexões são sempre ruins, vocês sabem, as tarifas desumanas. Claro que não lembram, mas acreditam. Por que não? Aqui na sala parece noite, o relógio de parede marca 4h17, mas furtei-lhe as pilhas assim que cheguei. Dormiram acesas as luzes, bom que não cortaram ainda. A vitrola, modelo setecentos e três, tocando um chiado fim de disco, deve ter passado a noite ligada. Na verdade, recavei um sinatra no depósito em meio a toneladas de desprezo. Desde então, acompanho learnin’ the blues ao piano vertical e afinado, dizem ter sido da minha bisavó. Morreu por complicações de bronquite, mamãe jovem. The tables are empty, the dance floor’s deserted. É desafiador tocar blues com o fá sustenido quebrado. The cigarrettes you light, one after another. O que não compromete o fato de ter sido a única coisa aproveitável nessa casa – afora o estéreo e o disco, claro. When you feel your heart break, you’re learnin’ the blues.

Minha preferência desde cedo, quanto mais instrumental melhor. O piano, a guitarra, o trompete cantam em linguagem universal. Aprendi a ouvir choro com ela, música de morro, música de gente de verdade, defendia. Cheguei a achar palatável, mas a cafonice comprometia o conjunto. Vindo de rico ou de pobre, meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê é literariamente equivalente a batatinha quando nasce se esparrama pelo chão. Corruptela, sempre digo, o correto é espalha a rama. Quem esparrama é uísque. O copo, não: estilhaça. Despencou durante a dança que continuei dançando. Eu, esnobe; ela, altruísta, dez anos mais nova. Eu com ela; ela sem mim. Nada restou daquilo, apenas o lenço turco, seda pura, rendinha bordada à mão, que usou por meses e meses. Guardei na gaveta de casa antes de ir embora sem deixar ninguém se despedir de mim.

Estacionei o santana noventa e quatro na esquina da praça, a poucos metros da saída de um colégio qualquer. Aguentou uma centena e meia de quilômetros sem reclamar. Não removi da ignição a chave. Lanço a cabeça para trás, pelos da nuca eriçados. Conferi as janelas fechadas, acendo o primeiro cigarro com a mão direita, enquanto a esquerda se ocupa do resto. Até quando vão se esquecer de trocar essa película carcomida?! Iam saindo uma a uma. Meninotas empinadas de saias jeans abaixo do joelho e camisa de poliéster ordinário, lançando-me ao desafio de adivinhar-lhes o desenho dos sutiãs. Os peitinhos pubescentes, como mandacarus aflorando na seca, diria gonzaga, ganhando a rua esquecidos da fome. Procurei um olhar semelhante que fosse. A diferença é que naquelas não cairiam bem vestidos longos, möet-chandon, valsas à meia-noite. Ar-condicionado quebrado, mormaço absurdo, alguém podia me ver através da fumaça?! Foda-se. Ainda que movesse uma multidão a plateia, as tomaria em pé ali mesmo, sob o pretexto de pôr-lhes ordem, já redimido do pecado. E riam, incontidas e nervosas: te mando a conversa; por favor não conte nada a ninguém; qualquer coisa pode dizer que estava lá em casa. Assim não, querida. Não me deixe tão facilmente, trancado nesse carro velho, dedos cerrados, tentando acomodar-me sob o tapete mofado.

Acendo o primeiro cigarro. O silêncio absoluto – nossa casa de campo sempre foi um reduto sem vizinhos –, possibilita-me escutar o crepitar do fumo. Exemplar operário o fogo, calcinando anéis de carbono em esculturas de escombros. Eduquei-me a fumar sem me desfazer das cinzas, porque precisam cair sozinhas. Certa vez, vi-as manter-se quase até o filtro. Era secundarista, nem suspeitava do palato inflamado. Mamãe reclama a toda hora. Meu pai, tabagista irredutível, não resistiu à primeira trombose coronária. Acendo o segundo, o terceiro; o quarto manchado de sangue. Um escroto, o velho. Mandou-se a estudar os apinayé, às margens do araguaia – eles aferem a temporalidade por referências a parentes mais velhos; não há uma medida orgânica do tempo, entendeu, garoto? Eu dizia que sim, pouco importava. Tempo era o que ele perdia demais com as alunas, enquanto mamãe cuidava das avencas, do açúcar para as formigas e do meu irmão. Não me lembro de tê-los visto trocando uma sílaba acima do tom. Ela nunca fez amigos. Ainda hoje serve a mesa com quatro pratos.

Se davam bem as duas, por mais improvável que seja. Mamãe não é do tipo que se compra com simpatia, sou capaz de apostar que foi por ela ter ajudado a aprontar bolo de noiva e lolitas para o natal do condomínio. Me dá nos nervos essa impaciência de sinatra esperando meu primeiro acorde. Celebridade é sempre prepotente. É verdade, desde aquele natal fazia vista grossa para as muitas ideias, a camisa folgada, orelha sem brinco. Ela tinha fome de beauvoir e chegou até a envolver-se com o movimento estudantil. Uísque direto da garrafa, os vidros restaram sobre o carpete. Ela não cansava de repetir que não sei quem dizia que o suicídio é a única questão filosófica verdadeiramente séria. Você não foi séria, meu bem.

Quer saber, saudade – também choram os galegos e os árabes, povos de incansável fraqueza – é palavra maldita, abomino tanto quanto os congressos de literatura regional. Saram rápido as feridas do sapo: já posso até limpar esse pano imundo no meu pé. Casamento marcado para julho, mês de imperador. Tudo ok com o capelão, convites aromatizados, buffet, conceito minimalista, essas modinhas gastronômicas, caralho a quatro. O sorriso piegas, porque sempre, encantava-me, porque desconhecidos os destinos a que nos reserva. O quão melhor seria se você sofresse – me traria mais força. Quem sabe me permitisse até sentir um pouco de pena: o mínimo de pena que pessoas socialmente saudáveis são capazes de se fazer sentir. Você, não. Muito corajosa, podia aguentar sempre sorrindo. Eu abandonei sant’anna na estrada – e ela não voltou em três dias. Aquela droga de sorriso, um oceano inteiro, arruinava tudo! Sempre nauseantemente maior que os problemas, maior que o mundo.

The tables are empty, the dance floor’s deserted. Foram incontáveis jantares sem sal, até o mielograma finalmente indicar a ausência completa de linfoblastos. The cigarrettes you light, one after another. E ela durou apenas dois meses. Lembra-se do primeiro médico ter dito que era uma apendicite?! When you feel your heart break, you’re learnin’ the blues. As gardênias substituíram o véu sem grandes prejuízos estéticos, devo admitir, ainda que fosse uma péssima escolha. Vai agradecer ao quê, filha da puta?! Avisei à família para não lhe dar ouvidos. Responderam que era desejo, não há o que fazer. Desejo?! E quem pode escolher o quê nessa vida?

No fim das contas, você desistiu na hora errada. Desculpa, você sabe como eu fico quando bebo. Uma rosa é uma rosa é uma rosa, não adianta, amor, tem razão. A garganta arde, aqui escurece muito cedo. Arrependo-me de não ter trazido comigo o lencinho. Faltou coragem de queimá-lo junto às fotografias, sabe?! Restam três garrafas, depois não sei o que acontece. Nunca mais – ouça bem –, nunca mais o solto por nada, nada, nada. E não sou de esquecer nenhuma promessa, viu?! A dedicatória aos nossos filhos, uma menina e um menino: como combinamos que seria.

VIII

É a mesma ruazinha sossegada,
Com as velhas rondas e as canções de outrora...
E os meus lindos pregões da madrugada
Passam cantando ruazinha em fora!

Mas parece que a luz está cansada...
E, não sei como, tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...

Sim, desses cartazes ante os quais
Nós às vezes paramos, indecisos...
Mas para que?... Se não adiantam mais!...

Pobres cartazes por aí afora
Que nada anunciam: - ALEGRIA – RISOS
Depois do Circo já ter ido embora...


Quintana

Heroísmo, pirilampos, wafer de abacaxi e outras coisas da mesma ordem de importância


Em alguns lugares pelos quais viajei, descobri que certas culturas não se sentem totalmente confortáveis com o termo "herói", para começar. A Austrália e a Alemanha são dois países em que as culturas parecem ligeiramente "herófobas".

Os australianos desconfiam dos apelos da virtude heroica porque esses conceitos foram usados para seduzir jovens australianos a lutarem nas batalhas britânicas. Os australianos têm seus heróis, é claro, mas estes tendem a ser discretos e recatados, e mantêm-se relutantes por muito mais tempo do que os heróis de outras culturas. Como a maior parte dos heróis, eles resistem aos chamados à aventura, mas continuam adiando a decisão e podem nunca se sentir à vontade sob o manto do heroísmo. Na cultura australiana é indecente buscar a liderança ou os refletores, e qualquer um que o faça é considerado um "canguru espalhafatoso" e deve ser ignorado. O herói mais admirável é aquele que recusa seu papel heroico enquanto for possível e que, como Mad Max, evita aceitar responsabilidades que não sejam as suas próprias.

A cultura alemã parece ambivalente em relação ao termo "herói". O herói tem uma longa tradição de veneração na Alemanha, mas duas Guerras Mundiais, o legado de Hitler e dos nazistas macularam este conceito. O nazismo e o militarismo alemães manipularam e distorceram os poderosos símbolos do mito do herói, evocando suas paixões para escravizar, desumanizar e destruir. Como qualquer sistema arquetípico, como qualquer filosofia ou credo, a forma heroica pode ser distorcida e utilizada com grande efeito em intenções malévolas.

No período pós-Hitler, a ideia do herói foi colocada em repouso, enquanto a cultura reavaliava a si mesma. Os anti-heróis moderados e insensíveis estão mais em harmonia com o espírito alemão atual. Há hoje em dia um tom de realismo despojado de sentimentalismo que é mais popular, embora sempre haja rompantes de romantismo e de amor pela fantasia. Os alemães podem se divertir com os contos de heróis imaginativos de outras culturas, mas não parecem à vontade com os heróis românticos de seu próprio território, por enquanto.


- Christopher Vogler, em "A jornada do escritor"